Sábado, Novembro 30, 2002
BASE_transição listrada
Alguns excertos fotográficos do DIN DIN da transição listrada.
A BASE é uma casa comum alugada pelo pessoal da transição listrada para servir de ponto de discussão e divulgação dos novos artistas.
O ambiente é muito agradável, a vizinhança tranquila, os cômodos aprazíveis.
Pollock e Miró - ou Ploc é melhor
Uma das obras era uma obra de participação coletiva. Assim que o espectador entrava, recebia um chicle de bola para mascar e pregar na parede, contribuíndo na formação da obra.
Jared Domício aproveitou o nome do evento, DIN DIN, e preparou sua obra fazendo diversos dindins de líquidos diferentes encontrados na casa - desde detergente até chá mate - e espalhando pela casa.
V.i.P.
Gabs
7:13 PM
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Sexta-feira, Novembro 29, 2002
DIN DIN
Experimentações | performances | idéias em processo
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Sábado: a partir das 14:00h até de noitinha.
DIN DIN é um evento que acontece em um só dia, com
experimentações de trabalhos em processo, efêmeros e
performances.
O projeto propõe fazer circular os trabalhos desse tipo
que estão sendo produzidos na cidade.
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BASE_transição listrada
R. Pentecoste, 89
Centro - Fortaleza-CE
Próx. Ao colégio Militar
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Eu vou.
Gabs
4:00 PM
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Quinta-feira, Novembro 28, 2002
Talvez seja a hora de deixar o barco ir, principalmente depois do que houve no dia em que Kodama despertou.
Epimeteu gostaria que o barco não se distanciasse da margem e que as velas triangulares servissem como complemento ao vale e ao labirinto, como registro do que já houve um dia.
Não há como esquecer e nem negar que tudo foi real, mas depois de ter aberto a caixa e espalhado os males, não há mais como fazer reviver o que as paredes do labirinto jogam na nossa frente a cada antecâmara ultrapassada. Pelo menos não mais à mesma maneira.
Que o último dom da caixa, agora ao chão, sirva para que Kodama e Teseu encontrem seus caminhos, sem distanciar o tanto que faça com que sintam-se ignorados e incomodados com a presença do outro. No mar há infindável espaço para todos os barcos.
O barco, presente do rei, vira ilha. A ilha que ambos desconheciam, mas que não está longe da margem. A ilha solitária.
O perdão não é a alforria do erro, mas é amálgama para quem errou. Gabs
2:58 PM
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O escritor das vírgulas encontrou o escritor cego aqui neste blog.
Posso dizer que são boas companhias.
Pra completar o meu trio de preferências, falta só o colombiano.
Gabs
11:26 AM
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Já que alguém falou antes...
"(...)
Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. (...)"
(José Saramago - O Conto da Ilha Desconhecida) Gabs
11:17 AM
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era um labirinto, um lago, um vale?
barcos tem âncoras para não ficar longe da margem.
Gabs
9:26 AM
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Quarta-feira, Novembro 27, 2002
O labirinto encerra todos os tempos - o passado, o presente, o futuro. O possível.
É neste labirinto que a linha de Teseu encontrou a acompanhante do escritor cego desacordada junto a uma parede.
Sentiu como se já estivesse estado lá (este tipo de construção só é possível porque, como disse, o labirinto encerra todos os tempos - o passado, o presente, o futuro. o dèja-vu), e estava, e esteve. As paredes, apesar de idênticas guardavam minúsculas inscrições que eram os testemunhos de todos os que perderam-se em suas antecâmaras. E todos que ainda buscam perder-se hoje.
O labirinto encerra todos os tempos - o passado, o presente, o futuro. O imensurável.
Se alguém grita em uma câmara, este grito ecoará por hoje, amanhã e por amanhãs tantos até tocar o ontem, quando não havia ainda grito - e havia.
As paredes tem o incrível poder de confundir o tempo. Este tempo que só se sabe ser contínuo fora destes domínios, talvez o único mecanismo contínuo do universo, Cronos o diga.
A linha de Teseu toca os pés de tantas que se perderam no labirinto e que são só uma. Pandora, Kodama, Ariadne. Nomes diversos para o mesmo invólucro de lembranças. As paredes confundem as memórias que são reais e o fio deixado pelo chão como trilha é a saída mais evidente do labirinto.
Será que ela ainda confia nestas paredes? Gabs
1:49 AM
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Epimeteu olha pela fresta da caixa, recém-lacrada, selada. O medo de abrí-la é corroborado pela infelicidade da experiência anterior. Epimeteu tem medo. Não o medo dos covardes, mas o medo dos culpados. Foi abrir o presente de Zeus entregue pela mão da bela dama e acabou espalhando os males, principalmente os condenáveis, pela humanidade. Tem medo que estes males que já uma vez deixaram a caixa para prejudicar outras pessoas voltem a fazê-lo quando reabrir o presente. Ele apenas olha, sentindo os olhares curiosos de Pandora, Prometeu e seu corvo, que esperam de si uma ação.
Epimeteu sabe que a ação solitária dele não corrigirá ou justificará o erro de ter aberto inadvertidamente a caixa de Pandora. Sabe que de nada adiantou ter fechado a caixa às pressas, uma vez que o erro estava feito e os males já haviam se espalhado pelo mundo. Ele apenas olha, sentindo os olhares curiosos de Pandora, Prometeu e seu corvo, que esperam de si uma ação.
Respira fundo e abre um pouco a caixa que tem em mãos. Uma réstia de luz adentra no espaço escuro e o faz enxergar o capricho irônico de Zeus - a esperança que fora guardada no fundo da caixa. O espaço aberto por ele é insuficiente e o pouco da Esperança que escapa por ali só é suficiente para chegar até Epimeteu, que sente o pouco do presente espalhar-se diafanamente por seu corpo. A Esperança, infelizmente, não chega aos outros espectadores da cena, é insuficiente para outrém. Epimeteu olha na direção de Pandora e imagina quantas paredes iguais os dois já devem ter encontrado ou rememorado neste labirinto que eles perderam-se uma vez ou no vale infindável onde cortaram seus pés nas pedras. Sente um profundo desejo de espalhar o resto do conteúdo da caixa, mas parece-lhe impossível reabrí-la completamente sozinho. Somente ela poderia desfazer o nó invisível que cerra o envólucro. Ele apenas olha, sentindo os olhares curiosos de Pandora, Prometeu e seu corvo, que esperam de si uma ação.
E ele também espera.
Gabs
1:31 AM
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Terça-feira, Novembro 26, 2002
Epimeteu desta vez titubeia em abrir o presente dado pelas mãos da bela mulher. Medo talvez ou insegurança?
Pandora, obra de Hefestos, com os olhos tenta entendê-lo. Nem ele consegue ao certo entender a si. Mesmo onisciente, o mundo exterior é bem mais compreensível que as mensagens de sua própria mente e coração.
O presente lacrado de Zeus não traz inscrição alguma. As dúvidas sobre o conteúdo são muitas, mesmo após Prometeu ter advertido ao irmão que nunca recebesse presente algum vindo do mestre do Olimpo, irritado com a evolução do projeto de Prometeu rumo a semi-divindade. Hoje o fogo, amanhã... os céus?
Os dois que olham-se, trocam presentes e mensagens cifradas não tem conhecimento que esta caixa, além de todo o bolo catastrófico de Zeus para o homem, guarda também no fundo irretocado o único sentimento antídoto a todos os malefícios do presente lacrado: a esperança.
Que Zeus, desta vez, não venha (re)fechar a caixa. Gabs
4:53 PM
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Beber sozinho em casa não tem a menor graça.
E a ironia é tão grande que os cigarros acabaram outra vez, justo quando a necessidade de respirar fumaça era maior.
A garrafa de vinho com o gargalo quebrado e alguns caquinhos milimétricos dividindo o espaço com os restos de cortiça no meu copo. Maldito saca-rolhas frágil demais.
Experimente uma vez na vida, tirar a cortiça de uma garrafa usando um abridor-de-lata.
Na janela, a lua parecia tão maior e o novo prédio ainda não tomou-me esta visão.
Ao menos isso.
Gabs
3:08 PM
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♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
There´s more than one way home
Ain´t no right way
Ain´t no wrong
Whatever road you might be on
You find your own way
There´s more than one way home
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so many places to call my own, and almost none to call home. Gabs
10:10 AM
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O lugar que mais conhecia era aquele onde ninguem conhecia a ele.
***
O meu inferno astral deve ter chegado mais cedo este ano.
Ou todos os anos.
desde sempre.
Sensação de não sentir-se parte. De reconhecer-se nos olhos dos outros e desconhecer-se entre as paredes cinzas.
Sensação de nunca ter feito parte. Gabs
12:14 AM
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Segunda-feira, Novembro 25, 2002
Não gostaria que estes restos fossem espólio.
Gabs
2:44 PM
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Há um muro e um filtro contra as palavras.
Ele sabe o que sente, embora não saiba como descrever.
É algo agridoce.
Sim, se gosta do que se conhece o gosto.
As inscrições no vale ainda existem.
Gabs
2:22 PM
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Não queria falar palavras bonitas, tampouco escrevê-las.
Queria apenas que o v a z i o entre as letras não oprimisse tanto quanto o vazio entre as palavras.
Sim, não houve tempo para pensar.
O tempo, sempre ele..
Gabs
2:08 PM
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Ele sabe que a distância voltou a ser a mesma que existia antes, quiçá até maior. Esta distância abismo que é infinitamente superior a distância dos corpos. É a distância que separa as opiniões opostas, desejos confusos e sentimentos de revolta e culpa, dependendo de quem os possua.
Ele sabe que a flor está enterrada, engolida por suas próprias raízes e o vaso está no lixo, em cacos. A mesma impulsividade dele que encantou a ela agora serve ao desencanto. O vaso recém colado se estilhaçou em mais pedaços quando ele deixou-o esvair de suas mãos. As mãos inseguras como os são quaisquer vontades de justificá-las.
Queria ser menos impulsivo. Tantas vezes repetiu isto como mantra. É o ciclo.
Queria enxergar as coisas com o mesmo olhar azul.
Queria que os perfumes, as noites, os sabonetes, os objetos, o travesseiro, os sóis matinais, os ventos vindos do rio, as luas aveludadas, as pontas dos dedos na mesa, a voz da diva, o violão do mestre não servissem a desgostos ou falsa impressão posterior de que foi tudo em vão ou fingido. Nunca o foi. Isto tudo ainda significa muito para ele, embora ela talvez não acredite.
E que sempre estes sinais e lembranças fossem referenciais de bons momentos neste vale infindável que ela fala, o da memória.
***
Há momentos em que percebemos que as palavras escritas nunca são suficientes e os diálogos de quem carrega algum sentimento de culpa sempre serão entrecortados por pausas fora de contexto.
sem texto.
Gabs
2:00 PM
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Sábado, Novembro 23, 2002
And I´m out of cigarettes.
And out of self-respect.
Gabs
5:14 PM
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Ressaca.
Moral.
principalmente.
Cefalite que não sei se vem do álcool ou do meu profundo modo egoísta de enxergar as relações humanas.
E ainda tem este prego que tenta perfurar minha cabeça pelo lado de dentro. Minhas têmporas não me pertencem.
Hoje estou pesado. Até ontem a tarde, era o pássaro que voava na minha cabeça. Hoje pareço um corpo que cai do parapeito da biblioteca da Babel de Borges.
Gabs
5:06 PM
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Sexta-feira, Novembro 22, 2002
Tem um pássaro voando na minha cabeça.
ele voa sobre uma área, a das lembranças, pára sobre a área das sensações boas, as asas batendo compulsivamente, e pousa sobre os sonhos.
o olho vivo a procurar, como quem caça. como pássaro que descava a minhoca no chão. o olho corre tudo, pega tudo.
Tem um pássaro na minha cabeça.
e que pára, cisca e belisca como quem cava, como quem procura.
(
- Você já viu um pássaro cavando? Ele pousa, fere a terra com o bico e cisca para afastar a areia. e cavar mais.
- Já. Está cavando nas lembranças. beliscando-as como iscas, puxando pra fora da terra o que enterrado estava.
)
Tem um pássaro voando.
como quem olha de cima, que sabe as coisas na sua completitude, as asas batendo, móbile suspenso.
e sabe mais do que eu, que estou condenado a ver as coisas sempre de baixo.
Tem um pássaro.
E eu quem gostaria de ter asas.
ou ao menos entender os mecanismos do vôo. Gabs
2:08 PM
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Tenho tanta coisa a dizer e uma vontade natimorta de.
Gabs
1:50 PM
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Às vezes chove em lugares fechados.
Há ainda muitos mistérios na noite.
Gabs
10:07 AM
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Quarta-feira, Novembro 20, 2002
Talvez idealização não seja a palavra, talvez nem a haja.
Gostar também não sei. Não se gosta do que não se conhece o gosto.
Tem-se curiosidade. E um profundo interesse pelo desconhecido.
Gabs
11:39 PM
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Mesmo embaralhando, é sempre a Dama de Copas a única carta que me sai neste jogo.
Eu paro e fico olhando, a carta entre as mãos, os olhos enigmáticos dela me observam despreocupadamente. Sinto vontade de falar, de me fazer entender, de entendê-la, decifrá-la. Mas não posso.
A Dama de Copas tem um valete, talvez do mesmo naipe, mesmo que em outro baralho, este distante. Cartas boas atraem boas sortes. Minha carta está fora deste baralho, definitivamente.
A Dama tem um Valete.
E eu que nunca fui dado a Platão.
Gabs
11:23 PM
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Terça-feira, Novembro 19, 2002
Sei que tenho andado monotemático, falando sobre o tempo, mas eu tinha que colocar isso aqui.
Numa tarde, semana passada, uma amiga emprestou-me e li As mentiras que os homens contam, de uma vez.
O melhor conto/crônica do livro é este que transcrevo. Se você usa conexão discada, não feche o navegador sem ler. Espere desconectar e leia desconectado, então. Mas não deixe de ler. É Veríssimo.
A Verdade
Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho, deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu o seu anel de diamante ser levado pelas águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancara o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margarida. O pai e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse:
- Agora me lembro, não era um homem, eram dois.
E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem, e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse:
- Então está com o terceiro!
Pois se lembrara que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram, e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para espanto dela.
- Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida - gritaram os aldeões. - Matem-no!
- Esperem! - gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca pelo seu pescoço. - Eu não roubei o anel. Foi ela quem me deu!
E apontou para a donzela, diante do escândalo de todos.
O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel, dizendo "Já que meus encantos não o seduzem, este anel comprará o seu amor". E ele sucumbira, pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra.
Todos se viraram contra a donzela e gritaram: "Rameira! Impura! Diaba!" e exigiram seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço.
Antes de morrer, a donzela disse para o pescador:
- A sua mentira era maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade?
O pescador deu de ombros e disse:
- A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.
(A Verdade - Luís Fernando Veríssimo) Gabs
11:35 PM
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Missiva número XI
Caro amigo,
Há um motivo para eu ter publicado o texto de Borges neste blog, pouco antes das duas transcrições de Nietzsche. Este motivo é a engraçada, por vezes irônica e surpreendente, relação que tenho mantido com o tempo ultimamente.
Sinto que não há uma maneira óbvia de calcular o tempo, as horas passadas, quer seja pelos fatos e sucessão de acontecimentos ou pela milenar tradição de minutos, segundos, quartos e horas. O tempo parece fugir às convenções. Tiro a liberdade de tomar por exemplo as convenções de distância. Um metro tem a mesma medida em qualquer lugar, uma jarda também. Uma hora, entretanto, depende. Tem horas que passam mais rápido que 15 minutos.
Inclusive, cataloguei um caso recentemente onde (ou seria quando?) três dias passaram mais rápido do que passariam 7 horas. O tempo realmente foge às convenções.
Amigo, Borges parece perceber, captar e transcrever o que não se pode ser medido, descrito, convencionado. É um mestre na fuga, esta fuga de convenções, do óbvio. O Labirinto, de Borges, nada mais é do que uma saborosa e instigante descrição da teoria nietzschiana do Eterno Retorno, repleta de dèja-vus e relembranças. O labirinto parece ser maior a cada verso, apenas adicionando fatos já ocorridos no tempo subentendido, que não foram falados antes e que agora são relembrados a medida em que se adentra cada vez mais no labirinto de Creta, até encerrar com o verso que condensa todos os tempos, o passado, o presente, o futuro e o próprio tempo imedível: "Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto". Borges adentra tanto no labirinto que se perde, num tempo passado e ao mesmo tempo presente.
Reza a lenda que o Labirinto de Creta tinha tantos ambientes que quem adentrasse nele não conseguiria nunca sair, nem pelo fim nem pela entrada. Os compartimentos e paredes do labirinto eram tão idênticos, apesar de diferentes - pois localizavam-se em regiões distintas do mítico edifício -, que confundiam quem se aventurasse a adentrar nele. É a metáfora-mor do tempo, cujos dejà-vus confundem-nos e nos pôem em dúvida se estamos vendo algo que está ocorrendo somente agora, ou se relembramos algo já acontecido e inconscientemente guardado no esquecimento.
Teseu, filho de Egeu, ao entrar no mítico "labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações", usa um novelo de linha desde a entrada a fim de não perder o caminho de volta. É a necessidade de se criar um caminho conhecido e inconfundível para o retorno. Talvez por isso, tenhamos nós, os homens, tanta necessidade de ordenar o tempo de forma linear. O tempo e suas convenções nem sempre aplicáveis.
As descrições do impossível encontram em Borges um narrador excepcional. Como quando ele descreve a Biblioteca de Babel, cuja forma circular de andares sobrepostos extende-se para o alto, ao infinito, e para baixo na direção do centro da Terra. Não se sabe como é a forma por fora: Borges já nos insere em um dos andares circulares do prédio, com suas estantes majestosamente enormes e centenas de prateleiras, e cujo parapeito recái sobre o eterno. Ai de quem cair nele. Nunca tocará o solo já que o corpo tem tempo suficiente para decompor-se e virar pó antes disso.
A Biblioteca guarda o impossível: todo o conhecimento humano em todas as edições possíveis. Ele relata que em certo andar da Biblioteca, os livros passam a se repetir nas prateleiras apenas mudando uma ou outra vírgula. Todos os livros da humanidade, inclusive os que não se consegue interpretar e decifrar os signos escritos em línguas desconhecidas, fazem parte do seu acervo. Borges consegue tocar ao mesmo tempo a impotência e a ignorância do homem perante o conhecimento que o rodeia. Conhecimento só conhecido pelo tempo, este onipresente e onisciente mecanismo. É o narrador do impossível. Ora, o próprio pretexto de uma obra de arquitetura de dimensões infinitas quebra qualquer convenção com o real.
Foi por isso que coloquei Borges aqui. Tinha a necessidade de falar da minha relação com o tempo ultimamente. Tempo que parece medonho durante a semana, quando exerço minhas atividades remuneradas, e me pareceu curtíssimo nos últimos dias, quando nenhuma convenção pôde ser aplicada. Tempo que me empurra dèja-vus e sensações que tenho certeza de já ter vivido e que às vezes me assusta com a impessoalidade com que joga as coisas na minha cara. As lembranças que, como num ciclo, vem e voltam constantemente e misturam-se ao momento atual.
Amigo, sinceramente chego a acreditar que o verdadeiro Eterno Retorno, que Nietzsche falou, é o eterno retorno das lembranças.
Espero que esta carta te encontre com saúde.
Abraços sinceros,
Gabs
11:55 AM
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♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
"Olha", continuei, "este momento! Deste portal chamado momento, uma longa, eterna rua leva para trás: às nossas costas há uma eternidade.
Tudo aquilo, das coisas que pode caminhar, não deve já, uma vez, ter percorrido esta rua? Tudo aquilo, das coisas, que pode acontecer, não deve já, uma vez, ter acontecido, passado, transcorrido?
E se tudo já existiu: que achas tu, anão, deste momento? Também este portal não deve já ter existido?
E não estão as coisas firmemente encadeadas, que este momento arrasta consigo todas as coisas vindouras? Portanto também a si mesmo?
Porque aquilo, de todas as coisas, que pode caminhar, deverá ainda, uma vez, percorrer também esta longa rua que leva para a frente!
E essa lenta aranha que rasteja ao luar, e o próprio luar, e eu e tu no portal, cochichando um com o outro, cochichando de coisas eternas não devemos todos, já ter estado aqui?
E voltar a estar e percorrer essa outra rua que leva para a frente, diante de nós, essa longa, temerosa rua, não devemos retornar eternamente?"
(Nietzsche - Assim falou Zaratustra) Gabs
12:19 AM
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♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Mais do que nunca, volto a imaginar minha vida em ciclos.
Mas não são ciclos perfeitamente esféricos; são ciclos labirínticos, como se as paredes parecessem as mesmas, embora diferentes. Por detalhes.
A sensação de se estar vivendo tudo novamente é quase tão grande quanto a sensação que me faz enxergar diferenças nas paredes do labirinto do tempo, onde o passado se perde em uma dobra e fica ali sempre, a espera de que a linha de Teseu o guie de volta ao início. É impressionante como tudo tende a buscar o que já se é conhecido.
O labirinto em Creta tem mais de 300 compartimentos; todos iguais e todos diferentes. Como as coisas que vemos passar novamente diante de nós, mesmo sabendo que não são as mesmas, apesar de serem. E é isso que torna o tempo - e a vida - tão imprevisível. As paredes.
Gabs
12:16 AM
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♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
O maior dos pesos.
E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse:
"Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma seqüência e ordem, e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente e você com ela, partícula de poeira!"
Você não se prostaria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: "Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!". Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, "Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?", pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela?
(Nietzsche - A gaia ciência) Gabs
12:05 AM
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Este é o labirinto de Creta.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.
(Labirinto - Jorge Luis Borges) Gabs
12:03 AM
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Domingo, Novembro 17, 2002
Gabs
11:27 PM
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O tempo passou tão rápido que quando deu por si era hora de voltar a casa.
As coisas mal tiveram tempo de se acostumar a novas posições no refúgio emprestado e já se viam de volta a mochila, onde se rebelavam às tentativas de ser novamente enclausuradas. Pareciam ter aumentado de tamanho durante a estadia do lado de fora tal era a dificuldade para fechar a bolsa.
Ele nem sequer chegou a se acostumar às novas paredes, aos novos ambientes, os novos cheiros, os sons do imóvel. Foram três dias que pareceram menos de um.
Sentia como se tivesse chegado na manhã do mesmo dia e agora saía no meio da tarde para pegar novamente a estrada da volta. Foram horas compreendidas num espaço onde naturalmente caberiam bem mais.
Não fossem os momentos em que o tempo parecia esticar, ficar maior e quase engolir os corpos, a sensação de tempo passando rápido o assustaria ainda mais. O conforto era perceber que o tempo passou rápido não porque as horas foram perdidas sem sentir, e sim porque foram muito bem aproveitadas.
Já no carro, ele olhou uma última vez para o muro branco de portão de madeira do local que lhe serviu de moradia temporária e cujas paredes silenciariam para sempre vários segredos e diálogos, não só os seus. E esboçou um sorriso de contentamento e cumplicidade, enquanto o carro engatava uma ré. Ré. Torno.
Gabs
10:52 PM
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Quinta-feira, Novembro 14, 2002
Trocar ares, mesmo que por um final de semana, é a melhor forma de se ficar mais leve.
Existem ares que pesam nas costas.
Outros que levantam os nossos pés. Este é o que procuro.
Viajo amanhã, volto domingo a noite.
Este blog vai ficar em Silenzio por alguns dias.
Silenzio, No hay banda. No hay orquestra. No hay autor.
Gabs
8:46 PM
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Quarta-feira, Novembro 13, 2002
Sensação de sugestão de queda, iminência.
Como quando a gente tá na beira do abismo e a rocha, em fração de segundos, desmancha sob nossos pés e a gente flutua por um instante antes de cair de todo.
É assim que eu tô me sentindo. Neste instante, o que a gente flutua sem voar.
Gabs
7:22 PM
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O som tocava uma banda conhecida, apesar de eu não conseguir lembrar de quase nenhuma música que ouvia. Apenas duas eu lembrei, apesar de ter trocado o refrão da primeira com o da segunda.
A música era a única a quebrar o silêncio enquanto o carro seguia por caminhos conhecidos. A cena me fez lembrar várias outras em que estávamos os mesmos personagens, no mesmo caminho. Só as pausas do diálogo eram menores.
A distância entre os dois que antes costumava ser tão pouca, separados por centímetros nos bancos, parecia ser do tamanho de um abismo. Sem ponte nenhuma para ajudar a quebrar o gelo. Nem a banda que gostamos e tocava no som colaborava.
Talvez Blur não fosse a trilha, talvez não houvesse trilha. A única música compartilhada era aquela do Caymmi que só existia na minha cabeça. A voz de Sarah Vaughan cantando o baiano competia com os vocais de Dammon Albarn, e só eu escutava.
Ouvi seus progressos pessoais, comemorava e contava os meus. Estava feliz por ela. Mas sentia falta dos diálogos mais empolgados de tempos atrás.
Me vi de fora. A cena recente se repetia. Dèja-vu. Estávamos os mesmos personagens, no mesmo caminho. Só as pausas do diálogo eram maiores.
Olhei pra fora e então percebi que buscava lembranças no lugar errado. O restaurante japonês passava pela janela. Não era o Blur que tinha as respostas. As rememorações não eram musicais; eram fatos.
A primeira vez que comi sushi, os encontros no Bar do Avião, os passeios no Dragão, as cervejas no Bar da esquina, a sinuca do Esquina da Silva, Monty Python, o primeiro CD que ela gravou pra dar de presente. E percebi que sempre poderia encontrar algo que me fizesse lembrar dela com um sorriso de satisfação pelas coisas boas.
O carro parou na frente do lugar que mais conheço. Na hora de sair, não houve ponte, a distância do abismo não se alterou. Beijei-lhe a face, despedida. Ela não se moveu.
Se ela ao menos soubesse que sempre vai ser lembrada como uma parte boa da minha vida. Gabs
6:48 AM
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Terça-feira, Novembro 12, 2002
Esta poesia eu escrevi já faz algum tempo, mas como o tema é chuva...
LAVAGEM
O céu cinzento ronca, reclama e chora
suas lágrimas pesadas, baças, turvas
Como um imenso lago que, de uma hora
para outra, se converte em tempestade, chuva
O céu vira uma cortina densa d'água
Que ao cair em borbotões no já quente chão
Desliza pelos caminhos, serpenteando e desagua
Leva sua sina, seu espólio, seu não
Escorre a água, dádiva dos céus, em torrente
Fazendo subir a poeira, em vapor morno, nas ruas
Vai lavando o caminho, arrastando tudo a corrente
Enquanto por trás da névoa esconde-se a cidade nua
Os prédios, como babéis, tentam tocar os nimbos
Estremecendo ao som pesado e surdo das trovoadas
Suas entranhas guardam gente, histórias, purgatórios, limbos
Suas fachadas guardam pecados, vergonhas desnudadas
Das janelas, alguém estende o rosto além do limiar
E deixa lavar a face, as mãos estendidas, ri só
E são vários os rostos a ver, sorrir com o feito e o imitar
Lavando as faces nas janelas, esperando a primeira gota de Sol
Vai lavando os pecados das gentes, por aqui, a chuva
Alguém deixa-se molhar na rua, abre os braçoes, espera redenção
Escorre a seus pés, busca infiltrar-se na terra a água turva
Buscando novamente seu primeiro berço, o chão.
Gabs
9:40 AM
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Sentiu saudades do tempo em que contava gotas de chuva. E era bem mais difícil que contar estrelas.
Estrelas não se movem.
Gabs
2:55 AM
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Andava há horas sobre o asfalto lavado. Não era época de chuvas em Fortaleza, mas pensando bem, nunca é época de chuva em Fortaleza. As pisadas decididas iam espalhando a água que antes corria livre, descendo entre os paralelepípedos para as bocas-de-lobo. Os pés abriam caminho na água, singravam o córrego temporário criado pela chuva e ele então olhou para o céu e pras nuvens que agora abriam-se. Baixou a vista para as calças e sapatos molhados e lembrou do temporal.
As gotas vieram tímidas a princípio. Primeiro uma, depois outra, mais outra e quando deu por si procurava uma laje para se proteger. Cada gota furiosa parecia querer atravessar-lhe o corpo. Talvez as gotas esperassem tanto tempo pra cair nestes dias secos que se rebelavam contra sua própria condição e desciam cada uma, kamikazes, apenas pra deixar o céu; não tinha tempo para considerações metafísicas a respeito do comportamento das águas, apenas queria se proteger ali embaixo enquanto o céu se desfazia.
Ele encostava-se na parede. As gotas ricocheteavam no chão próximo e molhavam a barra de sua calça. Uma rajada de vento molhou o resto de sua roupa e ele se deu conta de que não havia mais o que fazer a não ser deixar-se banhar por aquela água que caía inexorável. Saiu da laje.
Tinha agora 8 anos. Gabs
2:27 AM
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Segunda-feira, Novembro 11, 2002
Mullholand Drive é um filmão de David Lynch. No Brasil, ganhou o nome de Cidade dos Sonhos. Dois são os motivos, o primeiro é que a história se passa em Los Angeles, a cidade dos sonhos, onde fica Hollywood. O outro motivo acaba entregando o próprio filme.
A história, confusa, nos prega peças ao tentar nos fazer descobrir até que ponto o que vemos na tela é real ou não. Várias são as histórias que se cruzam, se encontram, se explicam e às vezes até se complicam já que nunca sabemos se a ação em questão realmente aconteceu.
O próprio clima sombrio de Lynch e sua obsessão por personagens bizarros, como o homem que vive numa sala de vidro, ajuda o clima fantástico do filme, que é repleto de metáforas que só se percebem a partir da segunda vez que se assiste.
A história de uma mulher que perde a memória após um acidente e é ajudada por uma moça ingênua do interior que vêm a Hollywood em busca do sucesso como atriz serve de pretexto para uma série de acontecimentos que não seguem uma ordem linear, enquanto ela busca recuperar sua memória. A história de um cineasta em meio a uma crise pessoal e que tem que aceitar incluir em seu filme uma atriz defendida por um figurão da máfia, e uma série de descobertas dão o tema metafórico presente durante todo o filme. Nada é, a priori, o que aparenta ser.
A frase que dá título a este blog surgiu de uma fala do filme, numa cena surreal passada em um teatro. "Silenzio. No hay banda. No hay orquestra."
Silenzio.
Gabs
1:14 PM
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Eu tinha escrito um post medonho sobre o Mullholand Drive, de David Lynch e o por quê do nome deste blog.
Mas aí o blogger fodeu tudo.
Whatever... quando eu tiver saco, posto de novo. Gabs
1:43 AM
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Sexta-feira, Novembro 08, 2002
Silenzio. Gabs
4:12 PM
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