Terça-feira, Dezembro 31, 2002
Um pequeno conto em 3 partes.
Com uma livre influência de "A Nova Califórnia", de Lima Barreto.
Gabs
2:49 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
(continuação - parte 3 de 3)
O habitante do casarão não deu atenção ao caso no princípio, mas com o aumento do temor da população e com medo das represálias dos que achavam que as assombrações tinham a ver com sua sinistra figura, resolveu pôr fim a tudo chamando o prefeito para uma conversa em particular na sua residência as 23:00h da noite seguinte. O motivo era desconhecido.
O prefeito esperando ter, enfim, seu sonho realizado, foi com prazer ao encontro do jovem. Não sem antes avisar, por telefone, a seu amigo juiz. Chegou na hora combinada e foi recebido à porta pelo próprio jovem que segurava um lampião a gás. Entraram para ter seu diálogo, deixando a porta entreaberta.
A velha sala do casarão estava iluminada apenas por velas. Os móveis mais novos deviam ter, no mínimo, trinta anos de existência.
- Desculpe a iluminação precária, Doutor Murilo, - desculpou-se o rapaz - A instalação elétrica ainda não foi inteiramente reformada.
- Tudo bem - respondeu o prefeito - A casa me atrái mesmo assim.
- Sei que ela o fascina, doutor. E sei que espalhaste os rumores a respeito deste casarão a fim de que ele se desvalorizasse a ponto de que eu tivesse que vendê-lo ao único que quisesse comprá-lo: o senhor. - falou secamente o proprietário, detendo a verdade.
- O quê? Mas senhor Roberico, como podes afirmar isso de mim? Nunca espalharia algo assim. Somos esclarecidos e sabemos o quanto é risível e impossível algo do tipo. Isso são boatos das mentes fantasiosas das massas mais pobres! Como vês, não é algo a merecer atenção de nós, que somos homens estudados. - defendeu-se cinicamente o prefeito, como quem já está habituada a fazer uso do jogo de palavras.
- O senhor não acredita que os mortos possam voltar? Sabes bem que meu tio morreu pressionado por seus pedidos insistentes em comprar o prédio. Não acredita na vingança dos mortos? - perguntou friamente, o semblante mais assustador iluminado pela fraca chama do lampião.
- Mas, Senhor Roberico. Convenhamos que isto é pura invenção do povo.
O jovem olhou atentamente na direção da sala, às costas do prefeito. Tudo que se fala tem de ter um fundo de verdade, disse com um sorriso macabro.
Doutor Murilo virou-se rapidamente para trás no momento exato em que a porta da frente da residência se fechava e a chave girava no sentido horário. Alguma inexplicável força invisível trancara a porta por dentro. O corpo do prefeito se petrificou. Estava sentindo um estranho calafrio percorrendo sua espinha.
- Acreditas na volta dos mortos, sua excelência? - Perguntou novamente, inabalado, o jovem.
O prefeito olhou no rosto do jovem. Sentiu a frieza do semblante que o encarava. Tão assustador quanto o vulto que passava por entre as cortinas e a janela, acompanhado de uivos que pareciam escorrer das paredes. Virou-se para a saída. Além da porta trancada, vasos de porcelana, que estavam por sobre as mesas, se precipitavam violentamente ao chão, os candelabros suspensos balançavam como pêndulos, as janelas abriam e batiam com força. Seu coração estava batendo tão alto que podia ser ouvido a alguns metros de distância. Correu na direção da porta e esforçou-se para destrancá-la, olhou pela última vez para trás, em pânico. No lugar do jovem estava um vulto curvo, pendendo para a frente, que ainda segurava o lampião como se não tivesse muita força e dizia: "Acreditas, excelência?". O prefeito chegou a rua. O frio e a névoa eram adversos à sua fuga do casarão. Após correr sem parar nenhum segundo por alguns quarteirões, encostou-se ao muro de uma escolinha. Ofegava e tremia, quando sentiu uma mão pesada em seu ombro.
- Doutor Murilo, o que houve? - perguntou-lhe o juiz, segurando capa e a bengala na outra mão.
O prefeito, que quase não conseguia manter-se em pé, olhou no fundo dos olhos do juiz e balbuciou algo que não foi compreendido perfeitamente, devido a respiração entrecortada e o suor e tremor que gelava sua testa, sacudia seu corpo. Em meio à agonia, ouviu-se dizer por fim: "Ele, Roberico, é..." e faleceu sem terminar sua frase, vitimado pelo derradeiro ataque de seu coração.
O juiz, assustado e preocupado, apressou-se em correr em direção ao velho casarão. Chegou em poucos minutos. Ao entrar, encontrou todas as luzes acesas e os vasos intactos sobre as mesas, nenhum sinal do jovem. Apressou-se em procurar um telefone para chamar a polícia, que não demorou mais que cinco minutos para chegar a casa. Era cidade pequena e o juiz gente importante. Passaram a procurar em todos os cantos, desde os mais visíveis até os menores locais onde um ser humano poderia se esconder. Nem o cesto de roupas escapou da inspeção meticulosa, o jovem advogado desaparecera sem deixar vestígio algum.
O juiz lembrou-se de um lugar que ainda não havia sido investigado: o escritório do finado Almeida. Subiu rapidamente o lance de escadas que levava ao quarto, e pôs-se a procurar pelo jovem. Para ele a busca pelo sobrinho do falecido dono da casa ainda não havia terminado. Ouvia ainda a frase misteriosa e agonizante do prefeito ecoando em sua cabeça. Foi num momento de pausa no pensamento que o juiz olhou para os pertences do velho proprietário da casa que repousavam por sobre a velha escrivaninha de mogno. Uma antiga foto, desgastada e castigada pelo tempo, que repousava de bruços por sobre os documentos na mesa destacava-se entre os demais. Devia ter, no mínimo 50 anos de existência. O juiz virou a foto e tremeu, após ler no verso: "Eu, Roberico Almeida, aos 25 anos".
Era o jovem. Gabs
2:43 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
(continuação - parte 2 de 3)
Como em todas as cidades pequenas do interior, a visita do jovem ao juiz já era assunto em todos os bares, calçadas, bodegas e no único salão-de-beleza da cidadezinha. Não tardou em chegar aos ouvidos do prefeito, que saiu rapidamente na direção da casa do juiz. Pretendia falar com o jovem, e, por que não, começar a fazer sua cabeça com a idéia de vender ou, quem sabe ainda, doar a residência para que a prefeitura pudesse tirar maior proveito. Afinal, era uma casa centenária e tal gesto caridoso seria muito bem-visto aos olhos da população. Na verdade, o prefeito enxergava atrás de sua obstinação as cifras generosas que o Governo Estadual enviaria a ele à título de restauração do prédio, e cuja fração teria um destino bem mais romântico em sua conta pessoal. Isso, obviamente, ele não dizia a ninguém.
O prefeito chegou à porta da residência do juiz no exato momento em que o jovem saía, na companhia do dono da casa, com as chaves na mão.
- Senhor Roberico... - disse o juiz ao jovem, que tinha o mesmo nome de seu tio. - este é o nosso prefeito, o Doutor Murilo Guedes.
O jovem esboçou um "muito prazer" desinteressado e voltou-se para o juiz:
- Podemos ir?
O juiz fez que sim com a cabeça. O prefeito, mesmo sem ser convidado passou a acompanhar os outros dois a caminho do velho prédio, enquanto mostrava quão bela era Pitombina e mencionava as maravilhas que fizera em sua administração bem-sucedida. Em meio a cálculos e estatísticas de quantas escolas construídas, quantos leitos novos no hospital, encontraram-se em frente ao casarão. Ao chegar à porta Roberico falou, estou cansado, e despediu-se dos companheiros de passeio, entrando sem convidar ninguém e passando a chave à porta.
À noite, o jovem já estava estabelecido no casarão. Nenhum outro habitante da cidade havia ouvido-o dizer uma palavra sequer, a não ser o juiz e o prefeito, que por sinal estavam reunidos em uma conversa particular no escritório jurídico. O povo acreditava que esta anti-sociabilidade deveria ser um mal dos Almeida. Tio e sobrinho eram idênticos no comportamento sério, recatado e ensimesmado.
A vontade de ter o casarão já havia virado uma obsessão ao prefeito. O juiz procurava nos autos algo que pudesse fazer para concretizar o desejo de seu amigo, sem ir de encontro a lei e abrindo caminho para sua parcela no montante das verbas de restauração. Não tinha gostado muito do novo habitante da cidade. Achara-o antipático. Tanto quanto o falecido tio.
O criado adentrou no escritório com o café na bandeja. Ouviu um trecho do diálogo e, pedindo licenças, aproveitou a conversa sobre o casarão para relatar uma estória que, segundo ele, acontecera na semana anterior. Contou que voltava do bar, onde bebera algumas doses para comemorar seu dia de folga, quando ao passar pelo casarão ouviu estranhos barulhos de móveis arrastando-se pelo chão e uivos que pareciam vir de Deus sabe onde. Apertou o passo para afastar-se o mais rápido do local, mas não sem antes se virar e ver um vulto que o observava da janela.
Os dois homens esclarecidos ouviram o causo do criado com atenção e com um brilho nos olhos. Com certeza tal história era proveniente das fantasias ébrias do narrador. Ao ceticismo dos cultos, adicionava-se um plano mirabolante. Quem sabe boatos sobre um certo casarão mal-assombrado assustariam o visitante e este venderia assim a propriedade à prefeitura a um preço módico... Esperavam que o sujeito não fosse tão cético quanto eles e, se o fosse, arranjariam um modo de impressioná-lo, nem que para isso tivessem que arquitetar falsas aparições fantasmagóricas ao redor da residência, aproveitando-se de seus leais peões e jagunços.
Resolveram pôr o plano em funcionamento no dia seguinte. Não foi difícil: o acontecimento que assustou o criado, adicionado à personalidade fria e casmurra do novo habitante contribuíram para que boatos sobre um casarão assombrado por fantasmas se espalhasse tão rápido que, em dias, até o jornal noticiava o fato em uma pequena notinha destinada mais ao entretenimento que à relatos de notícias de caráter mais importante.
(continua...) Gabs
2:40 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
O CASARÃO DE PITOMBINA
A cidade de Pitombina era pequena demais, até para os boatos.
As notícias naquele local tão afastado se espalhavam tão rápido que os jornais já eram obsoletos quando saíam da prensa.
Havia na cidade um velho casarão. Tão antigo quanto a própria, diziam. Seria um verdadeiro patrimônio histórico o prédio que já era velho quando da fundação de Canudos. Seria, se não fosse o seu velho proprietário que sempre recusava as ofertas da prefeitura para vender o local a ser transformado em um museu, com incentivos federais, após uma restauração patrocinada pelo erário estadual.
Sêo Almeida era como se chamava. Apenas Almeida depois do "Sêo". Ninguém sabia o seu primeiro nome. Era apenas Almeida, como seus antepassados de quem herdou sobrenome, avareza e o casarão. Talvez somente o cartório onde lavrara-se seu registro de nascimento, ou a delegacia de uma outra cidadezinha, onde tirou sua identidade soubessem tão recôndito segredo. Saía de casa apenas para cortar o cabelo na barbearia e até suas compras eram entregues em sua residência por algum criado da mercearia, em troca de uma gorjeta avara mas precisa. Não mantinha contato com seus vizinhos nem recebia visitas há muitos anos. Vivia recluso há anos tratando sozinho de uma infecção no pulmão e assim gostava de estar.
Sêo Almeida não agüentava as pressões do prefeito Guedes, assim como seu pulmão já reclamava o castigo dos abusos do fumo, vício que mantinha desde os onze anos, mais de sessenta anos de cesto. Com a insistência de Guedes, que agora agendava visitas e ligava periodicamente ao seu telefone, veio a agravar seu estado de saúde. Após algumas semanas internado no hospital local, carente de recursos, onde finalmente seu primeiro nome foi revelado, Roberico Almeida perdeu a luta para a doença. Faleceu, mas não sem antes deixar claro em seu testamento o destino de sua antiga residência.
Duas semanas se passaram até que chegou a Pitombina um jovem visitante, que parecia manter ao seu redor uma aura de mistério tão grande quanto a razão para que ali estivesse. Do alto de seus quase metro e oitenta, observava os olhares curiosos dos mais velhos assim que adentrou a rua principal, indo a caminho da residência do juiz. Não anunciara sua chegada, tampouco esperava recepção calorosa. Limitava-se a andar em direção a residência onde teria o encontro, sendo acompanhado por toda a rua por olhares curiosos nas portas e janelas. Os velhos sentados em cadeiras na calçada cochichavam entre si se seria este o sobrinho do velho finado Roberico Almeida. Tinham razão.
Poucos tinham tido contato com Sêo Almeida enquanto este ainda era vivo. Não sabiam sobre sua família e posses, além do casarão. Somente após a sua morte, tomaram conhecimento da existência de seu jovem sobrinho, que fora o único incluído no testamento do ancião. Devia ter vindo de longe para reclamar a herança.
O inventário não agradou a todos, sobretudo ao prefeito, cardíaco, que viu no jovem uma barreira entre ele e o velho prédio. A princípio, este tentou impedir a todo custo que o documento fosse cumprido à risca, mas o juiz era a voz final, e sua pseudo-moralidade falou mais alto que os anseios e ofertas do político. O que diriam seus superiores se tomassem conhecimento de sua fraqueza ao ter que decidir entre fazer-se a justiça ou aceitar a generosidade do alcaide?
O jovem se aproximou do portão da residência do juiz. Apertou o botão da campainha. O dono da casa, como que já estivesse esperando a visita, mandou seu criado atender o visitante e pôs-se a esperar no escritório. O criado levou-o até o escritório e deixou-o a sós com o juiz, que levantou-se de sua mesa para cumprimentar o recém-chegado:
- Boa tarde. Fique a vontade. - e como quem puxa conversa: - Andei lendo e soube que o senhor também é advogado. Pretendes ser juiz?
- Não exerço a profissão, vivo de posses. - respondeu secamente, o semblante imóvel.
- O senhor era o parente mais próximo do finado Sêo Almeida, não? - perguntou o juiz, fingindo uma falsa intimidade, à medida que se aproximava da cadeira de onde tinha se levantado.
- Era, não. Sou o mais próximo, senhor. - Respondeu, movendo apenas o mínimo de músculos necessários para tal ação.
O juiz fingiu não ter entendido o teor sarcástico e desafiador da resposta, e soltou um sorriso amarelo. Apesar de ser uma das pessoas mais importantes em Pitombina, não queria gerar um clima de hostilidade com o forasteiro. Quem sabe uma amizade por conveniência fosse mais proveitosa a ele.
- Meritíssimo, como sabes, vim aqui apenas para tratar de nossos assuntos a respeito da transferência da posse do casarão de meu tio. Podemos apressar este nosso diálogo?
- Mas é claro. Desculpe-me. Terminemos logo com isso e poderei entregar ao senhor as chaves, que estão em meu poder desde o sinistro. Sentaram-se.
(continua...) Gabs
2:38 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Segunda-feira, Dezembro 30, 2002
con.cei.to
Gabs
3:19 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Domingo, Dezembro 29, 2002
Mesmo quando fala de amor, Munch o encara sob a ótica do pessimismo e da dificuldade das relações.
Na sua obra, Eye in The Eye, vemos os dois amantes, separados por uma árvore e pela profunda incomunicabilidade. Os dois não tem bocas, a comunicação é baseada no silêncio do olhar trocado.
Talvez esta representação alegórica do silêncio seja uma forma de chamar a atenção para a solidão que é provocada pela ausência da comunicação. Ambos os amantes olham-se entediados, apesar de apaixonados. A distância entre os dois é maior que a representada no quadro.
Qualquer pessoa sabe o quanto é grande a impressão de distância provocada pelo silêncio, pela ausência de comunicação.
Quando fala das separações, o pintor utiliza uma técnica recorrente quanto ao estilo de pinceladas, como vemos nas duas próximas obras, Amor & Psiche e Comfort.
Na primeira, os dois estão nus mas não se tocam. É perceptível o pesar no rosto da mulher.
Na segunda, o homem acalma a mulher, que chora. A impressão que temos é a de observar a tela através de uma cortina de lágrimas, graças às pinceladas. Munch nos dá a impressão de chorarmos também, nos inserindo no quadro.
Algumas outras recorrências no trabalho de Munch, os amantes mudos e o cenário, como uma série:
E a tríade autobiográfica sobre a separação e decepção:
*
Munch pintava sensações.
Gabs
4:15 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Sábado, Dezembro 28, 2002
"(...)Sob árvores inglesas meditei sobre esse labirinto perdido: imaginei-o inviolado e perfeito no cume secreto de uma montanha, imaginei-o apagado por arrozais ou debaixo da água, imaginei-o infinito, não somente de quiosques oitavados e de sendas que voltam, mas sim de rios e províncias e reinos... Pensei num labirinto de labirintos, num sinuoso labirinto crescente que abarcasse o passado e o futuro e que envolvesse, de algum modo, os astros. Absorto nestas ilusórias imagens, esqueci meu destino de perseguido. Senti-me, por tempo indeterminado, com percepção abstrata do mundo. O vago e vivo campo, a lua, os restos da tarde agiram sobre mim; também o declive que eliminava qualquer possibilidade de cansaço. A tarde era íntima, inifinita. O caminho descia e se bifurcava, entre as já confusas pradarias.(...)"
(J L Borges - O Jardim das Veredas que se bifurcam)
Agora me digam, como podia um escritor destes ser cego. A grande maioria das pessoas no mundo não tem sequer um décimo da visão de Borges. Gabs
6:21 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
- Bege.
- Bege? Como assim, bege?
- Ué, você me perguntou e eu respondi. Qual sua cor favorita, e eu, bege.
- Mas como se pode preferir uma cor como o bege? Não entendo.
- Oras. Tem gente que gosta de azul, tem gente que gosta de verde. Eu gosto de bege.
- Mas, vejamos... bege eu nem considero uma cor.
- Como não?
- Olha só. O bege é mais ou menos como o salmão, como o fúscia... É algo que sonha ser uma cor e não é. Quer ser marrom e não consegue, quer ser cinza mas não pode. Aliás, você sabia que podemos entender muito da personalidade das pessoas através das cores?
- Você é psicóloga agora?
- Não, sério. Por exemplo, uma pessoa cuja cor preferida é o azul claro, é uma pessoa tranquila, centrada. Uma pessoa que prefira o vermelho, é uma pessoa mais passional. Há os que preferem o laranja, estas são extrovertidas. Isso independe do que a pessoa veste ou não, e sim da preferência.
- Interessante. Nunca tinha parado para ver isso.
- Pois é.
- E quem gosta de bege, o que é?
- Sei lá. Acho que ninguém nunca estudou o bege.
- Que pena... Afasta um pouco. Me diz então qual é a sua cor favorita?
- Rubronegro.
- Boa!
============
Este texto é antigo, não contém entrelinhas e destina-se apenas a ser sobremesa. É um interlúdio lúdico, portanto.
Gabs
3:26 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Quinta-feira, Dezembro 26, 2002
Por mais que o Natal tenha passado ontem, acho que ainda é tempo para desejar felicidades e deixar por aqui o conto mais borgeano da Cecília:
Natal na Ilha do Nanja
(Cecília Meireles)
Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos próprios" e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim.
Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova - mas uma roupinha barata, pois é gente pobre - apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.
Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho - antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial : "Boas Festas! Boas Festas!"
E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes - mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe - trata-se de uma ilha, com praias e pescadores! - uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!
Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.
Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.
É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.
*** Gabs
2:31 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Terça-feira, Dezembro 24, 2002
Há vários temas constantes no trabalho do pintor norueguês.
Solidão, doença, morte, o ciclo da vida, o amor e as separações.
Pretendo escrever um pouco sobre isso nestes próximos dias...
Por hoje fica a Solidão.
Gabs
2:50 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Falar de monotemas ao se referir a Edvard Munch é quase um pleonasmo. Logo ele, que elegeu o desespero e a solidão como tema principal e tem motivos e paisagens recorrentes em seu trabalho.
A ponte de Oslo, por exemplo, como metáfora do início e fim. Do destino.
"Passeava pela estrada com dois amigos, olhando o pôr-do-sol, quando o céu de repente se tornou vermelho como sangue. Parei, recostei-me na cerca, extremamente cansado - sobre o fiorde preto azulado e a cidade estendiam-se sangue e línguas de fogo. Meus amigos foram andando e eu fiquei, tremendo de medo - podia sentir um grito infinito atravessando a paisagem." (Munch)
Há nas telas de Munch todo este desespero acumulado, a captura de um instante perturbador, o momento onde a emoção extravasa os limites do corpo e se manifesta na paisagem, ou sobre o modelo, desfigurando tudo, misturando cores e limites. É possível sentir a obra de Munch.
A frase mais conhecida de Munch é aquela extraída de seu diário: "Não devemos pintar interiores com pessoas lendo e mulheres tricotando; devemos pintar pessoas que vivem, respiram, sentem, sofrem e amam".
E assim o fez.
A perspectiva, esta sensação de que algo está prestes a acontecer, está presente em todos os momentos de Munch, mesmo quando não é a ponte o motivo principal. A sacada sobre a Rue Lafayette vira alegoria desta ponte enquanto o homem na sacada apenas acompanha o movimento da rua, estático. Vê a vida passar.
Mais uma vez, a ponte é o divisor, o limiar da sacada separa o personagem do resto do mundo que passa a seus pés. Tudo acontece, menos a ele. O mundo não pára para ninguém. E esta talvez seja a maior comprovação.
...
É a repetição que angustia.
*
Gabs
2:41 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Segunda-feira, Dezembro 23, 2002
Andrea, encontrar você e o Ítalo hoje só podia ser algo premeditado.
Seria muita coincidência encontrá-los por acaso na Odysséia na mesma semana onde o chefe me fez praticamente incorporar a Penélope (Não me interpretem errado!), fazendo e refazendo o mesmo projeto trocentas vezes.
Estava premeditado desde segunda. Só que a gente não sabia ainda.
Foi um prazer!
Gabs
1:49 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Quinta-feira, Dezembro 19, 2002
Como eu sei que adoro monotemas, preparem-se para ler sobre Munch por aqui...
Gabs
7:19 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Gosto de Munch porque ele é um pintor onírico, como poucos puderam ser. Talvez Chagall chegue o mais próximo, com outro estilo.
Suas pinceladas criam linhas tênues entre o real e a abstração, como o cenário do Grito onde o próprio cenário atrás do homem se contorce como a dor do grito inaudível.
É uma obra que pra mim representa a solidão, mas não a solidão do estar só no vazio, mas aquela no meio da multidão. Como as pessoas que andam na ponte sem dar atenção ao homem que grita de dor. O grito é dele, o sofrimento é só dele e ninguém quer escutá-lo.
É este desespero, o grito sem platéia, o grito surdo, que pôe este quadro entre os meus favoritos e Munch no mesmo rol. Talvez poucos puderam condensar numa mesma tela uma carga de significado e abstração tão grande, tampouco tão estarrecedora compreensão do mundo.
É olhar para a expressão de desespero sem ouvir em nenhum momento a súplica do homem que se contorce na ponte. Apenas o cenário se modifica sobre ele, os traços contorcem-se rumo ao infinito, embora permaneça igual para todo o resto. É a constatação obviamente tardia de que o mundo não vai parar por você. Nunca.
Gabs
7:18 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
[Mais ou menos como tenho me sentido ultimamente.] Gabs
1:23 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Sei que tenho andado relapso com este blog nos últimos dias. Não estou tendo tempo para atualizá-lo na freqüência que eu gostaria.
Mas tinha que vir dizer que adorei ser citado no blog da Andrea, que leio diariamente escondido do chefe. Falta eu ajeitar o link dela aqui do lado depois, mas farei isso assim que tiver um tempinho.
Gabs
12:55 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Terça-feira, Dezembro 17, 2002
Waléria Américo também tirou fotos no show.
Gostaria de vê-las.
Como sei que a Lid tem mais contato com ela...
Gabs
4:41 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Com os devidos créditos à Mônica.
Anfiteatro Dragão do Mar - 14 de Dezembro, 2002.
Gabs
2:34 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Segunda-feira, Dezembro 16, 2002
Há um gosto de acaso em minha boca.
Gabs
1:56 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Quinta-feira, Dezembro 12, 2002
Uma pequena agenda:
Hoje
o deserto que se chama tudo aquilo
Livro de poemas _ Ricardo Alcântara
Apresentação:
Recital de Marta Aurélia
Quinta, 12 de dezembro de 2002
Livraria Livro Técnico, 19h
Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Rua Dragão do Mar, 81 - Iracema
(Infelizmente este não vai dar para ir. Estarei na Rádio Universitária na mesma hora, com a banda de blues. Mas vá.)
sábado
CEARÁ BLUES SESSIONS
ANFITEATRO DRAGÃO DO MAR
A PARTIR DAS 21h
COM AS BANDAS:
Bitten Blues
Blues Label
Double Blues
Inteira: R$ 10,00
Meia: R$ 5,00
Conto com a presença de todo mundo que chegou aqui.
Gabs
12:14 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Quarta-feira, Dezembro 11, 2002
Lá fora tem um lugar que me faz bem
- E eu vou lá-á.
(Lá fora tem - Cidadão Instigado)
Gabs
12:01 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Sou desta cidade autofágica
como organismo que se engole e multiplica a cada dia
Como fígado de Prometeu
Sou desta cidade de Zigurates
babilônia, talião
de babéis e incompreensão
Sou desta cidade de extremos
da ponte de metal que não leva a lugar algum
e de mais abismos que ruas
Sou desta cidade de contrastes
cingapura, bolívia, nova iorque
província e metrópole, deserto e mar
Sou desta cidade
onde os abismos são rasos em distância
e os pobres dormem nas calçadas dos ricos
separados destes por uma fina camada de concreto
Fina como o jornal que os recobre.
Sou desta cidade de sinais vermelhos,
ruas de terra, de asfalto, calçamento
pobres, meninos e velhas
carros importados e perfume francês
Sou desta cidade que devolve os filhos ao mundo
Dos natinômades, dos notívagos e errantes
na vida, no mundo
Sou desta cidade.
Fortaleza, sou teu
Gabs
12:00 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Terça-feira, Dezembro 10, 2002
Variar os caminhos de vez em quando.
pedras, postes, prédios, pessoas, perto e desconhecido.
casas, carros, comércio, construções.
Fortaleza está crescendo verti(calmente / ginosamente).
As plagas que conhece ainda te rendem boas surpresas.
Gabs
2:19 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Segunda-feira, Dezembro 09, 2002
Em determinada parte do livro de Saramago, o oleiro reflete sobre todas as teorias de criação do homem e seu único ponto em comum: o barro moldado pelo criador.
Diz que em todas estas culturas, incluíndo as indígenas pré-colombianas, o barro é a matéria prima do homem. O barro moldado e queimado, que por ser queimado em temperaturas diferentes criou as raças pela variação das cores do branco pálido ao negro, passando pelo vermelho.
O barro, a argila, como instrumento, escolhido por seu significado. A mão que segura o mundo. Que molda, que cria.
Gabs
1:02 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
"Nas cosmogonias gnósticas, os demiurgos amassam um vermelho Adão que não consegue pôr-se de pé"; (Jorge Luis Borges)
O personagem central de A Caverna, um livro menor na minha concepção, de Saramago, é um velho oleiro que vê seu trabalho se tornar obsoleto com o avanço do uso do plástico no feitio de canecas, copos, bacias e outros objetos antes feitos de barro.
No livro, platônico em essência, há um organismo social definido - o shopping - que aos poucos vai agregando polofagicamente o resto da cidade. Aos poucos o prédio vai crescendo até tornar-se, em si, a própria representação da cidade. Fora dos domínios do shopping, há o retrocesso e a barbárie. Dentro, o ar limpo e uma série de novas convenções sociais. Comportamentos e novos preconceitos que vão surgindo a medida em que se forma um novo contexto social dentro da nova cidade.
É interessante notar como o escritor consegue, a partir de temas simples, compor nas entrelinhas uma verdadeira crítica aos comportamentos sociais.
Se isto se via no Ensaio sobre a Cegueira onde se descrevia uma relação intensa de neo-preconceitos e segregações aos novos cegos que remetiam aos campos de concentração nazistas, o medo do desconhecido; o mesmo acontece aqui onde todos sonham morar no shopping e esquecer o mundo bárbaro e atrasado do lado de fora. Aceitam até abdicar de sua liberdade, de suas janelas com vistas pro mundo exterior, apenas para fazer parte do "progresso".
O progresso enfim acaba encontrando o retrocesso ao esbarrarem os personagens com um cena mitológica que, até então, julgava-se ser somente uma parábola grega, uma alegoria. É neste ponto que o livro se revela: é a súmula de uma nova organização social, tal como uma nova representação da alegoria de Platão. Um relato sobre o nascimento das relações e fatos sociais; sobre estar preso a esta sociedade, seus limites e imposições e não virar a cabeça na direção contrária. Gabs
12:51 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Sábado, Dezembro 07, 2002
A última parte.
- PARTE 4 -
Sua vitória e sua paz ficaram embaciadas de fastio. Nos crepúsculos do entardecer e da alba, prostrava-se diante da figura de pedra, talvez imaginando que seu filho irreal praticasse idênticos ritos, noutras ruínas circulares, águas abaixo; de noite, não sonhava, ou sonhava como fazem todos os homens. Percebia com certa palidez os sons e formas do universo: o filho ausente se nutria dessas diminuições de alma. O propósito de sua vida fora atingido; o homem persistiu numa espécie de êxtase. No fim de um tempo que certos narradores de sua história preferem computar em anos e outros em lustros, dois remadores o despertaram, à meia-noite: não pôde ver seus rostos, mas lhe falaram de um homem mágico, num templo do Norte, capaz de tocar o fogo e não queimar-se. O mago recordou que de todas as criaturas que constituem o orbe, o fogo era o único que sabia ser seu filho um fantasma. Essa lembrança, apaziguadora no princípio, acabou por atormentá-lo. Temeu que seu filho meditasse nesse privilégio anormal e descobrisse de alguma maneira sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! A todo pai interessam os filhos que procriou (que permitiu) numa simples confusão ou felicidade; é natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensado entranha por entranha e traço por traço, em mil e uma noites secretas.
O final de suas cavilações foi brusco, mas o anunciaram alguns sinais. Primeiro (no término de uma longa seca) uma remota nuvem numa colina, leve como um pássaro; logo, para o Sul, o céu que tinha a cor rosa da gengiva dos leopardos; depois as fumaradas que enferrujam o metal das noites; depois a fuga pânica das bestas. Porque se repetiu o acontecido faz muitos séculos. As ruínas do santuário do deus do fogo foram destruídas pelo fogo. Numa alvorada sem pássaros, o mago viu cingir-se contra os muros o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas em seguida compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo dos trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.
Gabs
12:14 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Sexta-feira, Dezembro 06, 2002
- PARTE 3 -
Nas cosmogonias gnósticas, os demiurgos amassam um vermelho Adão que não consegue pôr-se de pé; tão inábil e tosco e elementar como esse Adão de pó era o Adão de sonho que as noites do mago tinham fabricado. Uma tarde, o homem quase destruiu toda a sua obra, mas se arrependeu. (Mais lhe teria valido destruí-la.) Esgotados os votos aos numes da terra e do rio, arrojou-se aos pés da efígie que talvez fosse um tigre e talvez um potro, e implorou seu desconhecido socorro. Nesse crepúsculo, sonhou com a estátua. Sonhou-a viva, trêmula: não era um atroz bastardo de tigre e potro, mas simultaneamente essas duas criaturas veementes e também um touro, uma rosa, uma tempestade. Esse múltiplo deus revelou-lhe que seu nome terrenal era Fogo, que nesse templo circular (e noutros iguais) prestavam-lhe sacrifícios e culto e que magicamente animaria o fantasma sonhado, de tal sorte que todas as criaturas, exceto o próprio Fogo e o sonhador, julgassem-no um homem de carne e osso. Ordenou-lhe que uma vez instruído nos ritos, remetesse-o ao outro templo derruído, cujas pirâmides persistem águas abaixo, para que alguma voz o glorificasse naquele edifício deserto. No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.
O mago executou essas ordens. Consagrou um prazo (que finalmente abrangeu dois anos) para desvendar-lhe os arcanos do universo e do culto do fogo. Intimamente, doía-lhe separar-se dele. Com o pretexto da necessidade pedagógica, dilatava diariamente as horas dedicadas ao sonho. Também refez o ombro direito, talvez deficiente. Às vezes, inquietava-o uma impressão de que tudo isso havia acontecido... Em geral, eram-lhe felizes os dias; ao fechar os olhos pensava: Agora estarei com meu filho. Ou, mais raramente: O filho que gerei me espera e não existirá se eu não for.
Gradualmente, habituou-o à realidade. Uma vez determinou-lhe que embandeirasse um cume longínquo. No outro dia, flamejava a bandeira no cimo. Esboçou outras experiências análogas, cada vez mais audazes. Compreendeu com certo desgosto que seu filho estava pronto para nascer ¿ e talvez impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez e enviou-o ao outro templo cujos despojos branqueiam rio abaixo, a muitas léguas de inextricável selva e pântano. Antes (para que nunca soubesse que era um fantasma, para que se acreditasse um homem como os outros) infundiu-lhe o esquecimento total de seus anos de aprendiz.
(continua) Gabs
7:42 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
São 4 as partes. Por enquanto deixo vocês com duas.
Gabs
12:24 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
- PARTE 2 -
Depois de nove ou dez noites, compreendeu, com alguma amargura, que não podia esperar nada daqueles alunos que passivamente aceitavam sua doutrina e sim daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e afeição, não podiam ascender a indivíduos; os últimos preexistiam um pouco mais. Uma tarde (agora também as tardes eram tributárias do sonho, agora velava apenas um par de horas no amanhecer) licenciou para sempre o vasto colégio ilusório e ficou com um só aluno. Era um rapaz taciturno, citrino, indócil às vezes, de feições afiladas repetindo as de seu sonhador. A brusca eliminação de seus condiscípulos não o desconcertou por muito tempo; seu progresso, no fim de poucas lições particulares, pôde maravilhar o mestre. Não obstante, sobreveio a catástrofe. O homem, um dia, emergiu do sono como de um deserto viscoso, olhou a luz vã da tarde que, à primeira vista, confundiu com a aurora e compreendeu que não sonhara. Toda essa noite e todo o dia, contra ele se abateu a intolerável lucidez da insônia. Quis explorar a selva, extenuar-se; somente alcançou entre a cicuta aragens de sonho débil, listradas fugazmente de visões do tipo rudimentar: inaproveitáveis. Quis congregar o colégio e apenas havia articular algumas breves palavras de exortação, este se deformou, se apagou. Na quase perpétua vigília, lágrimas de ira queimavam-lhe os velhos olhos.
Compreendeu que o empenho de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que se compõem os sonhos é o mais árduo que pode empreender um homem, ainda que penetre todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árduo que tecer uma corda de areia ou amoedar o vento sem efígie. Compreendeu que um fracasso inicial era inevitável. Prometeu esquecer a enorme alucinação que no começo o desviara e buscou outro método de trabalho. Antes de exercitá-lo, dedicou um mês à recuperação das forças que o delírio havia exaurido. Abandonou toda premeditação de sonhar e quase imediatamente conseguiu dormir uma razoável parte do dia. As raras vezes que sonhou, durante esse período, não reparou nos sonhos. Para reatar a tarefa, esperou que o disco da lua fosse perfeito. Logo, à tarde, purificou-se nas águas do rio, adorou os deuses planetário, pronunciou as sílabas lícitas de um nome poderoso e dormiu. Quase subitamente, sonhou com um coração que pulsava.
Sonhou-o ativo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, cor grená na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto ou sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante quatorze lúcidas noites. Cada noite, percebia-o com maior evidência. Não o tocava: limitava-se a testemunhá-lo, observá-lo, talvez corrigi-lo com o olhar. Percebia-o, vivia-o, de muitas distâncias e ângulos. Na décima quarta noite, roçou a artéria pulmonar com o indicador e após todo o coração, por fora e por dentro. O exame o satisfez. Deliberadamente não sonhou durante uma noite: logo retomou o coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a visão de outro dos órgãos principais. Antes de um ano chegou ao esqueleto, às pálpebras. O pêlo inumerável foi talvez a mais difícil tarefa. Sonhou um homem inteiro, um moço, mas este não se incorporava nem falava, nem podia abrir os olhos. Noite após noite, o homem sonhava-o adormecido.
Gabs
12:23 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Como prometido:
AS RUÍNAS CIRCULARES
(Jorge Luís Borges)
- PARTE 1 -
And if he left off dreaming about you...
Through the Looking-Glass, VI
Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que sua pátria era uma das infinitas aldeias que estão águas acima, no flanco violento da montanha, onde o idioma zenda não se contaminou de grego e onde é infreqüente a lepra. O certo é que o homem cinza beijou o lodo, subiu as encostas da ribeira sem afastar (provavelmente, sem sentir) as espadanas que lhe dilaceravam as carnes e se arrastou, mareado e ensangüentado, até o recinto circular que coroa um tigre ou cavalo de pedra, que teve certa vez a cor do fogo e agora a da cinza. Esse círculo é um templo que os incêndios antigos devoraram, que a selva palúdica profanou e cujo deus não recebe honra dos homens. O forasteiro estendeu-se sob o pedestal. O sol alto o despertou. Comprovou sem assombro que as feridas cicatrizaram; fechou os olhos pálidos e dormiu, não por fraqueza da carne, mas por determinação da vontade. Sabia que esse templo era o lugar que seu invencível propósito postulava; sabia que as árvores incessantes não conseguiram estrangular, rio abaixo, as ruínas de outro templo propício, também de deuses incendiados e mortos; sabia que sua imediata obrigação era o sonho. Por volta da meia-noite, despertou-o o grito inconsolável de um pássaro. Rastros de pés descalços, alguns figos e um cântaro advertiram-no de que os homens da região haviam espiado respeitosos seu sonho e solicitavam-lhe o cuidado ou temiam-lhe a mágica. Sentiu o frio do medo e na muralha dilapidada buscou um nicho sepulcral e se tapou com folhas desconhecidas.
O objetivo que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse projeto mágico esgotara o inteiro espaço de sua alma; se alguém lhe perguntasse o próprio nome ou qualquer traço de sua vida anterior, não teria acertado na resposta. Convinha-lhe o templo inabitado e derruído, porque era um mínimo de mundo visível; a vizinhança dos lavradores também , porque estes se encarregam de suprir suas necessidades frugais. O arroz e as frutas de seu tributo eram pábulo suficiente para seu corpo, consagrado à única tarefa de dormir e sonhar.
No começo, eram caóticos os sonhos; pouco depois, foram de natureza dialética. O forasteiro sonhava-se no centro de um anfiteatro circular que era de certo modo o templo incendiado: nuvens de alunos taciturnos fatigavam os degraus; os rostos dos últimos pendiam há muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos. O homem ditava-lhes lições de Anatomia, de Cosmografia, de magia: as fisionomias concentravam-se ávidas e procuravam responder com entendimento, como se adivinhassem a importância daquele exame, que redimiria em cada um a condição de vã aparência e o interpolaria no mundo real. O homem, no sonho e na vigília, considerava as respostas de seus fantasmas, não se deixava iludir pelos impostores, previa em certas perplexidades uma inteligência crescente. Buscava uma alma que merecesse participar no universo.
(CONTINUA) Gabs
12:20 AM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Quarta-feira, Dezembro 04, 2002
Há um conto do escritor cego, que é o meu conto favorito dele - Gabriel García Marquez tem outros que prefiro mais, mas do Borges o favorito é este mesmo - que conseguiu de mim uma façanha que quase nunca me presto a fazer, a da releitura. E a da re-releitura.
Sempre tenho tanta impressão de que meu tempo é curto demais para que eu possa ler tudo o que gostaria, que acabo selecionando bastante e nunca relendo o mesmo livro. Acho que o tempo da releitura pode ser melhor empregado na leitura de algo novo, que vai te tomar a atenção e direcionamento por uns tempos e te instigar o suficiente para que você o guarde na memória como teu filme subjetivo, já que as imagens que vê quando recorda a história do livro nunca serão as mesmas de outro que o recorda também. As imagens sempre serão só suas.
"As Ruínas Circulares" gira em torno da dicotomia da vida e da morte. Borges no entanto encara esta relação sobre uma outra óptica - o que seria de se esperar em se tratando do escritor que criou um universo fantástico só seu e subverteu todas as lógicas conhecidas de tempo, espaço, física e finitude - baseando-se na premissa de que seu protagonista resolve "sonhar" um ser humano e o cria como um filho visitando-o morfeticamente todas as noites. A eternidade se apresenta quando Borges mostra a transmissão do conhecimento do pai-criador à criatura e a eterna angústia do criador que teme em revelar ao filho sua triste condição: a de um homem criado no sonho de outro homem. O protagonista, como forma de esconder de seu projeto a realidade, dá-lhe o esquecimento deixando-o simplesmente desacordado no mundo real sem nenhuma lembrança de sua criação.
Se eu falar algo mais, acabo entregando o final maravilhoso do conto, que vou postar aqui em partes.
Gabs
11:49 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Terça-feira, Dezembro 03, 2002
Hay banda
Se você ainda não ouviu O Ciclo da Dê.Cadência, trabalho do Cidadão Instigado, não sabe o que tá perdendo.
Clicando aqui você escuta o CD inteiro. Depois é só clicar e comprar.
Recomendado.
Gabs
5:33 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
Domingo, Dezembro 01, 2002
Talvez a saliva seja o representante da coletividade, em vez das digitais que são tão individuais.
Colar chicletes na parede, formando um painel coletivo, e como tal caótico até certo ponto.
Se fossem usadas massinhas, as digitais que ficariam impressas tirariam todo o sentido de multiparticipação, da multiplicidade dos autores que participaram da intervenção. A saliva não. Mascar o chiclete, exercitar os maxilares, salivar aquela saliva doce. Linguagem. E a superfície do chiclete é lisa demais para permitir que se grave a tua digital nela, que se marque. O painel era de todos e de ninguém.
Talvez as digitais sejam os representantes da individualidade.
A saliva, em vez, é tão democrática que se aceita trocar de corpo vez em quando.
Gabs
3:41 PM
|
♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣ ♣
|