Quarta-feira, Janeiro 29, 2003
Há um zigurate próximo ao prédio onde trabalho. Posso o ver da janela.
É vermelho e grande assim.
E tão caótico como o é o trânsito perto dele.
Não é retangular, nem redondo, nem qualquer forma conhecida.
Apenas é.
E por isso mesmo me espanto sempre que o avisto da janela do corredor.
Tenho a impressão de que um dia chegarei à janela e o prédio não estará mais lá.
Quem o sonhou deve estar precisando dele em outro canto.
Talvez para ilustrar outros sonhos, outras histórias, outro mundo.
Mas não;
Sempre que chego a janela ainda o vejo, desafiando minha compreensão do que seja arquitetura.
Algum dia ele sumirá, como o prédio em forma de navio na Praia de Iracema algum dia abandonará sua condição imóvel e partirá para outro continente além-mar.
Enquanto esse dia não chega, contemplo meu zigurate da janela.
É vermelho e grande assim.
E tão caótico como o é o trânsito perto dele.
Gabs
11:41 AM
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Gostava do Centro da cidade na época das chuvas.
Ia ao cinema durante a tarde e gostava de ficar a espera das 6 horas, quando o clima da charmosa decadência do bairro encontrava o céu melancolicamente cinza de fevereiro. Gostava de voltar para casa respirando o ar úmido no fim da tarde, sentindo os últimos respingos da chuva leve e fina no rosto.
Ia andando sob as lajes que transformavam-se em quedas d´agua temporárias ouvindo o deslizar dos carros no asfalto recém molhado pela chuva, singrando as poças, brincando de ir. Pareciam chinelas sendo arrastadas num chão de alvenaria. Lembrou da infância no interior, suspirou, apertou o botão e esperou o sinal abrir.
Atravessou sentindo molharem os sapatos no leito da rua, a barra da calça pesada. Não se importou com as gotas que molhavam a camisa.
Nos quarteirões, as lojas iam descendo as portas basculantes sistematicamente tão logo anunciava-se o fim do expediente. Parecia-lhe que os vendedores aguardavam impacientemente o último cliente sair, antes das 6 horas, para descer as portas quase ao mesmo tempo. Segurou um sorriso de canto de boca enquanto via o espetáculo. O arrastar de sandálias misturou-se ao som metálico das portas que fechavam. Em cinco minutos ninguém acharia uma loja aberta no centro de Fortaleza.
Chegava à parada de ônibus contente. Conseguia ver a cidade sempre com olhos de visitante e achar beleza nas coisas mais simples. Até na decadência dos prédios art nouveau cinzentos que revezavam vidas e afazeres e tentavam alcançar o céu de nuvens escuras que despejavam suas gotas sobre os guarda-chuvas impacientes. Imaginou a rua como um rio e sorriu ao avistar as luzes do ônibus que, como uma nau, vinha navegando rumo ao porto, abrindo espaço entre as águas.
- Para casa, timoneiro.
Gabs
11:34 AM
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Terça-feira, Janeiro 28, 2003
UTILIDADE PRIVADA PÚBLICA
Para quem vai estar no Ceará no Carnaval.
Já saiu a programação do Festival de Blues e Jazz de Guaramiranga!
Dia 01 - Sábado
14h no Teatro
Ensaio aberto com Hermeto Pascoal
21h em Aratuba
Banda de Música de Guaramiranga
Moacir Bedê em "Mistura Brasileira"
20h no Teatro
Banda Selecionada: Overtrio
Tributo a Dominguinhos com Adelson Viana
21:30h na Praça do Teatro
Tambores de Guaramiranga
22h no Teatro
Banda Selecionada: Tribo de Jazz
Hermeto Pascoal
Meia-Noite na Praça do Teatro
Jam Session
Dia 02 - Domingo
14h no Teatro
Ensaio aberto com Fernando Noronha & Black Soul
17h na Matriz
Duofel
21h em Aratuba
Marajazz
Moacir Bedê em "Mistura Brasileira"
20h no Teatro
Banda Selecionada: Dino Rangel
Tributo a Sarah Vaughan com Fátima Santos
21:30h na Praça do Teatro
Grupo 7 Lagos (de Guaramiranga)
22h no Teatro
Banda Selecionada: Vox Dei Blues Project
Fernando Noronha & Black Soul
Meia-Noite na Praça do Teatro
Jam Session
Dia 03 - Segunda
14h no Teatro
Ensaio aberto com Baseado em Blues
17h na Matriz
Alex Holanda com Banda Miscelânea
21h em Aratuba
Bitten Blues
Moacir Bedê em "Mistura Brasileira"
20h no Teatro
Banda Selecionada: Big Chico
Tributo a Ray Charles com Lúcio Ricardo
21:30h na Praça do Teatro
Grupo de Violões de Guaramiranga
22h no Teatro
Banda Selecionada: Double Blues Band
Baseado em Blues
Meia-Noite na Praça do Teatro
Jam Session
Dia 04 - Terça
14h no Teatro
Ensaio aberto com Traditional Jazz Band
21h em Aratuba
Alex Holanda com Banda Miscelânea
Moacir Bedê em "Mistura Brasileira"
20h no Teatro
Banda Selecionada: Izy Gordon
Tributo a John Coltrane com Márcio Resende
21:30h na Praça do Teatro
Banda de Música de Guaramiranga
22h no Teatro
Banda Selecionada: Marajazz
Traditional Jazz Band
Meia-Noite na Praça do Teatro
Jam Session
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Tocaremos dia 03 de Março em Aratuba, junto com o Moacir Bedê.
Quem puder ir...
Gabs
8:03 PM
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Travei contato com a revista Arraia Pajeúrbe, do poeta Carlos Emílio, no último sábado.
Numa mesa, cheia de pessoas legais, ele nos mostrou o número dois da revista, vanguardista e revolucionária, feita a 160 mãos. São 80 os colaboradores.
A diagramação é interessante e a revista de literatura chama a atenção primeiro pelo fato de ser triangular, quando fechada. Parece um guardanapo gigante.
No domingo, Carol me emprestou a primeira edição da revista e estou lendo-a desde então. Colocarei fotos aqui em breve.
A segunda, que vimos no bar, ainda será lançada oficialmente. Será dia 07 de Fevereiro, Sexta-feira, a partir das 18h no Mercado dos Pinhões. Quem puder ir, vá. A revista custará 10 reais e grande parte dos colaboradores estará por lá. Você ainda terá a chance de comprar também a primeira edição que tem Torquato Neto e Hélio Oiticica entre os temas das reportagens. Gabs
1:07 PM
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Domingo, Janeiro 26, 2003
Sem reticências e com muito orgulho.
Ser indicado como um dos blogs favoritos no NoMínimo foi a surpresa mais agradável deste final-de-semana.
Não consigo descrever a emoção de ver meu nome na capa de um site assinado e freqüentado por feras como Zuenir Ventura, Pedro Dória, Tutty Vasquez, Ricardo A. Setti e João Moreira Salles. Obrigado. De coração.
E a todos vocês que estão chegando aqui pela primeira vez, sejam muito bem-vindos!
Fiquem a vontade. Podem tirar os chinelos, estejam em casa.
Gabs
11:36 AM
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Terça-feira, Janeiro 21, 2003
Olhava receoso o copo com o líquido esbranquiçado sobre a mesa. Ao lado, a faca afiada descansando próximo aos pulsos e punhos fechados em preparação de prece. Fazia o encaminhamento de sua alma e pedia perdão de seus pecados antes de finalmente tornar-se cobaia de seu experimento talvez derradeiro. Suava frio com o medo do desconhecido. Desde pequeno fora ensinado a evitar a morte e as recomendações comuns eram as de evitar o que fazia no momento. A vontade era do tamanho do medo.
Sabia que por trás dele toda uma legião havia ousado transpôr a barreira das tradições e ditos populares, a tênue linha fronteiriça entre o que tem base real de fato e o que não passa de meros empirismos não constatados, mas incontestáveis. O líquido branco e opaco tornava-se mais atraente e a faca era afiada o suficiente. Estendeu o braço, segurou com a mão, respirou fundo. Sentia o sangue pulsando na veia dilatada, o rosto enrubescendo e esquentando, o suor que descia frio pelas têmporas.
Passou a faca levemente sobre a fina pele, o suficiente para levantá-la um pouco e sujar a fria lâmina metálica com o líquido espesso e levemente adocicado que saía do pequeno corte aberto. Notou que quanto mais apertava, mais saía. Levou a boca e sentiu um gosto doce. Achou bom. Cortou do outro lado e pôs-se a chupar o líquido que escorria. Resolveu cortar mais um pouco, não sentiu nada mais.
Sabia que sua tarefa não estava completa. Olhava o copo repousado sobre a mesa, o líquido esbranquiçado convidativo, a última etapa para a experiência de transpôr os limites do desconhecido. Lembrou-se da velha avó que o levava para a igreja e lembrou como era agradável ficar sentado enquanto as frágeis e agéis mãos enrugadas desfilavam pelas contas do rosário preto com a cruz sagrada na ponta. Lembrou que ficava mexendo os lábios como se rezasse, para agradar a velhinha que sorria de volta enquanto orava o ave maria, talvez por saber que o menino estava apenas inventando ou por lhe aprazer o fato de ter no neto um pouco da sua religiosidade. Lembrou-se que ela foi uma das primeiras a lhe falar sobre céu, inferno e purgatório, sobre conhecimentos populares e as conseqüências que o ato que fazia agora lhe traria.
Por um instante se preocupou. O suor descia mas já nem o sentia. Para acabar de uma vez por todas e de uma forma rápida com tudo aquilo, faltava apenas virar o copo e beber de um gole só todo o líquido esbranquiçado. Sentiu medo e receio enquanto habilmente virava o copo na boca. Olhou o líquido espesso e adocicado do último corte que manchava a mesa. Fechou os olhos e saboreou cada gole como se fosse o último.
Após alguns segundos, que pareceram horas, esperando a morte, constatou surpreso que nem todos os conhecimentos populares são inflexivelmente verdadeiros. Sua avó estava errada. Olhou mais uma vez o líquido adocicado que manchava a mesa e a faca depois do corte da manga. Se levantou para pegar um pano para limpar a sujeira enquanto levava o copo de leite vazio para a pia.
Sentia-se vitorioso. Gabs
10:03 PM
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Vi Pandora, Kodama, Ariadne.
Hora do almoço, local neutro, sem que esperássemos ou marcássemos a nova conversa.
A última foi a da despedida, "até que a gente se encontre por acaso - freqüentamos os mesmo círculos."
A(s) entendo quando pediu(ram) a mim que evitasse os locais óbvios - suas casas - onde as chances de um encontro inesperado seriam grandes.
Que seja ao acaso. Quando o acaso o quiser.
Ok.
..
Hoje almocei com o pessoal da banda. Fomos confirmados no Festival de Blues e Jazz de Guaramiranga. Coisa grande.
Entre a conversa, no labirinto de mesas estava Ariadne. Alguns metros de distância - o suficiente para causar o incômodo de cumprimentar a distância todos de sua mesa sem que ela se virasse. Se evita o encontro do olhar quando a presença física próxima tornou-se inevitável.
Almocei. Confesso que, de tempos em tempos, olhava para lá na esperança de Kodama retornar o cumprimento ainda não feito. Mas não. E ficava feliz em a ver sorrindo com seus (nossos) amigos, despreocupadamente, enquanto eu me corroía pelo fato de não ter coragem de me levantar pra ir até lá e dizer "Oi, tudo bem? Há quanto tempo... Como está?". Também nem sei se ela gostaria que o fizesse.
Na hora de ir embora, busco estrategicamente outro caminho. O pessoal da banda não sabe e sai na frente passando ao lado da mesa. Passo cumprimentando o pessoal do jornal. O cumprimento tímido para Pandora, que devolve ao mesmo modo. Fujo, sou covarde.
Há que se respeitar o acaso. Há que se aceitar o tempo. Há de se reatar amizades.
E há de se evitar o medo das palavras e dos encontros fortuitos.
...
(Se não for tarde, "Oi, tudo bem? Como está?") Gabs
8:26 PM
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Segunda-feira, Janeiro 20, 2003
Chuva em Fortaleza sempre me remete a história da lavagem dos pecados.
Mas eu adoro acordar com as gotas na janela.
Gabs
11:25 AM
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Sábado, Janeiro 18, 2003
As luzes pareciam estrelas ao redor da orla.
O céu invejou o chão estrelado. Gabs
3:33 PM
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Sexta-feira, Janeiro 17, 2003
O Homem-Árvore
Às sete e meia daquela manhã de Janeiro, largou o jornal, o paletó e a pasta no chão e ficou parado no meio da praça.
As primeiras horas foram as mais difíceis, as pessoas passavam curiosas e observavam o experimento, comentavam, algumas paravam e ficavam esperando que ele decidisse se mover e sair dali. Mas não, ele continuava, as pernas juntas, o olhar fixo acima da cabeça das pessoas. Alguns ex-colegas do escritório onde trabalhava até a metade daquela manhã passaram por ele, a caminho do almoço. E, se se deram conta do conhecido, preferiram ignorar. Um destes que se pintam de prateado e fingem ser estátuas para ganhar alguns trocados, vendo a imobilidade determinada do novo vizinho de praça, desistiu da competição e foi para casa com o fruto de seu trabalho. Era o fim do dia.
A lua iluminava o novo morador da praça e o vento fazia balançar seus cabelos. Os guardas que faziam a ronda noturna observavam ao longe o homem imóvel, em pé. Chegaram a pegar-lhe o pulso para saber se ainda vivia. Ele apenas dormia, cansado. No meio da madrugada a figura do homem imóvel já não atraía nenhuma atenção mais dos responsáveis pela segurança do local e estes conversavam animadamente os causos dos outros distritos policiais.
Abriu os olhos na manhã seguinte e deu de cara com uma multidão de curiosos. Nem por isso se mexeu - estava determinado. A pasta e o paletó haviam sumido. Se apalpasse os bolsos constataria também que não havia mais carteira de cédulas acolá e até suas abotoaduras haviam sido levadas. Em vez disso, continuava imóvel. As pessoas jogavam moedas no chão a sua frente, com a esperança de que ele se movesse, até desistirem e começar a apanhar as moedas de volta. Neste dia, o homem prateado deu-se conta que havia perdido o emprego e foi atrás de outra praça.
Pelo quarto dia, os noticiários e periódicos matinais enviaram seus repórteres para cobrir o inusitado acontecimento. Nos jornais escritos, o fato ganhou apenas pequenas notinhas, distribuídas mundialmente pela Reuters; na televisão e na internet o espaço foi bem maior, talvez pelo espaço exagerado que eles sempre disponibilizam para notícias de menor importância. O fato é que o homem imóvel da praça ficou famoso e até representantes do Guinness Book anunciaram sua chegada para a semana seguinte a fim de comprovar a veracidade de tal informação. A multidão já se revezava em frente ao homem e alguns, como caridade, traziam água com canudinho para introduzir na boca do ilustre. A polícia foi reforçada para manter a ordem no local.
A mulher que o havia deixado, acompanhada do ex-amigo e do filho que não era a sua cara, apareceu por lá na tentativa de demovê-lo da sua resolução absurda. O filho não. Este se orgulhava do pai famoso e tentou ainda ficar alguns minutos imóvel, imitando o exemplo. Desistiu no segundo minuto após o nariz ter coçado. Seu pai, sem dúvida alguma, era um herói.
Um certo dia, na nona semana talvez, o interesse pelo homem imóvel começou a diminuir, como sempre ocorre nestes casos, até cessar de vez. Outros cantos da cidade foram descobertos e as poucas pessoas que ainda passavam pela praça nem davam mais atenção ao "herói nacional" (foi como o presidente o chamou após a inclusão no Guinness!). Os policiais apareciam ainda de vez em quando para checar sua pulsação, até o dia em que não vieram mais. Os bancos foram degradando e o mato amarelando por falta de manutenção. No fim, ficou a praça e seu morador.
Certo dia constatou que sua barba e cabelo formavam uma imensa copa que balançava quando o vento soprava um pouco mais forte. Os dedos já magros e finos pareciam galhinhos frágeis e as unhas cresceram como ramificações; a pele esverdeada, a velha roupa já marrom. Deu-se conta também que após tanto tempo imóvel não mais poderia sair dali: seus pés haviam criado raízes e afundavam no chão rumo ao centro da terra.
Hoje acordei triste pois soube que a prefeitura vai mandar cimentar a praça. Vão cortar todas as árvores para colocar árvores de plástico duro onde as crianças tecnófilas poderão bincar com segurança. As pessoas esqueceram do homem-árvore, mas ele ainda está lá, até hoje, e é a única árvore da região com a copa branquinha, branquinha. Dizem que a sombra que faz é boa.
Gabs
12:50 PM
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Quinta-feira, Janeiro 16, 2003
"Este calor ainda me mata", ela disse, o olhar perdido, o cigarro displicentemente pendurado entre os dedos, as baforadas no mundo. Era uma daquelas noites tão áridas que nem mosquitos sobrevoavam as lâmpadas e as folhas mantinham-se imóveis no topo das árvores. "E está tão quente", prosseguiu, "que nem ventar venta".
Era típico dela, pensou. Tecer considerações sobre o tempo era chavão nas conversas sem assunto. Era o coringa. Faltava assunto e pronto. Era o calor que fazia, o céu que nublava, o vento frio. Coçou a barba, recostado à cadeira na varanda, o jornal dobrado no colo, chupou o resto de sopa no dente, disse: "É".
Não sabia há quanto tempo se viam naquela situação. Em alguns anos, o assunto havia esgotado e suas vidas óbvias não tinham mais enredos interessantes nem novos causos desconhecidos. Era o sentar na varanda o prazer tradicional do dia, logo após a janta. Ela e seu cigarro, ele e seu jornal. Ela soltava baforadas fitando o outro lado da rua, onde ônibus passavam com suas entranhas carregadas, pessoas com expressões semimortas. Ele lia a página de Polícia para ficar a par dos últimos assassinatos a ser comentados no intervalo do almoço no trabalho do dia seguinte. Tinham prazeres simples.
Ele pensava há quanto tempo não ouvia a voz dela e por instantes tentava lembrar seu timbre. Fazia tempo que não conversavam ou saíam - estar na varanda era o momento lúdico do dia e aproveitavam e apreciavam aquele momento não por prazer mas por comodismo. Era batata! Ele começava a tentar lembrar o timbre de voz dela, relembrando as frases e apelidos como ela o chamava, tentando rememorar a cadência da voz, como era mesmo? quando ela simplesmente tragava o cigarro, olhava o longe, soltava a baforada e, sem virar para ele, dizia: "Já notou como as árvores estão paradas, sem vento algum?"
E ele dizia, coçando a barba e chupando o resto de sopa no dente, "É". E ficava refletindo sobre o por quê de não mais conversarem como antes.
E, no fundo, ele pensava consigo: "Meu Deus, como ela é óbvia!". E decorava os fatos da última chacina. Gabs
2:38 AM
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O Artista da Fome
(parte final)
Pequeno obstáculo, não havia dúvida, e que cada vez menor se tornava. As pessoas familiarizavam-se com a estranha idéias de que delas se esperava, nestes tempos, que se interessassem pelo artista da fome, e esta familiaridade era justamente o veredito contra ele. Poderia jejuar à vontade e era o que fazia, mas nada agora o salvaria. O povo passava, indiferente. Fosse alguém explicar a arte do jejum! Quem não a apreciasse espontaneamente, jamais chegaria a compreendê-la. Os belos cartazes foram tornando-se sujos e ilegíveis e acabaram sendo em parte arrancados. A pequena tabuleta indicando o número de dias, havia muito marcava a mesma data, pois nem mesmo este pequeno esforço parecia útil aos funcionários. Assim sendo, o artista continuava jejuando e jejuando, como antes fora seu sonho. Isto não o incomodava, como ele soubera, que não o incomodaria. Mas ninguém mais contava os dias, ninguém.; nem mesmo o artista sabia que recorde estaria ele batendo e seu coração se confrangia. Quando, de vez em quando, um passante se detinha e zombava do velho deitado ali no chão, falando em fraude, tratava-se da mais estúpida mentira jamais inventada pela indiferença e malícia humanas. Não era o artista que estava trapaceando. Ele trabalhava honestamente; o mundo, sim, o lograva, privando-o da merecida recompensa.
Muitos dias se passaram e também aquilo chegou ao fim. Um fiscal apareceu ali e perguntou aos funcionários por que se desperdiçava uma jaula que continha apenas um monte de palha suja. Ninguém soube responder até que um deles, notando o cartaz com o número de dias, lembrou do artista da fome. Enfiaram um pau na palha e o descobriram.
- Ainda está jejuando? - perguntou o inspetor. - Quando, em nome dos céus, pretende parar?
- Perdoem-me todos - murmurou o artista. Somente o fiscal, que tinha o ouvido perto das grades, conseguiu entendê-lo.
- Claro que o perdoamos - respondeu, batendo na testa, como a indicar aos empregados o estado mental do jejuador.
- Sempre desejei que admirassem minha resistência.
- Claro que a admiramos - disse o fiscal, amavelmente.
- Mas não deviam admirar.
- Está certo, não admiramos, então, mas por que diz isto?
- Porque tenho que jejuar, não posso evitá-lo.
- Que tipo você é! - exclamou o inspetor - Por que não pode evitá-lo?
- Porque não consegui encontrar comida a meu gosto - respondeu o artista, erguendo um pouco a cabeça e falando junto ao ouvido do outro, para que não se perdesse uma sílaba. - Se a tivesse encontrado, creia que não teria feito nada disto e me empanturraria como o senhor ou qualquer outro.
Foram estas suas ultimas palavras, mas não olhos apagados restava a firme, embora não mais orgulhosa, certeza de que continuaria a jejuar.
- Pois bem, limpem isto aqui! - ordenou o fiscal.
Enterraram o artista da fome, com palha e tudo. Em seu lugar, puseram uma jovem pantera. Até mesmo as pessoas mais insensíveis acharam agradável ver o animal selvagem pulando na jaula que durante muito tempo tão lúgubre parecera. A pantera ia muito bem. A comida que lhe convinha era trazida pontualmente pelos empregados e ela nem mesmo dava impressão de sentir a ausência de liberdade. Aquele nobre corpo, provido ao máximo de todo o necessário, parecia trazer em si a própria liberdade. A alegria de viver fluía de suas faces com tal ardor, que aos espectadores não era difícil suportar o choque. Mas enchiam-se de coragem, comprimindo-se à volta da jaula, e acabavam não querendo mais se afastar. Gabs
2:13 AM
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Segunda-feira, Janeiro 13, 2003
Amanhã a última parte do Artista da Fome.
Tem alguém acompanhando?
Gabs
11:27 PM
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O Artista da Fome
(Continuação - parte 3)
Um circo importante, que está continuamente contratando e substituindo homens, animais e aparelhamento, sempre pode utilizar um artista, até mesmo um jejuador, contanto que não exija muito. No caso presente, não estavam os diretores interessados somente no artista, como em sua fama, durante longos anos adquirida. Considerando-se a peculiaridade de seu ofício, que não se prejudicara com a idade, não se podia dizer que ali estivesse um artista que, tendo ultrapassado a maturidade e não se achando mais em plena forma, viera buscar refúgio num circo. Pelo contrário, o jejuador afirmava ser capaz de suportar a abstinência tanto quanto antes e disso não se poderia duvidar. Chegou mesmo a declarar que se lhe dessem carta branca, o que lhe foi imediatamente prometido, poderia assombrar o mundo, estabelecendo um recorde jamais alcançado. Tal declaração provocou risos nos outros profissionais, pois não estava sendo levada em conta a frieza do público, fato que o jejuador, em seu zelo, parecera ter convenientemente esquecido.
No íntimo, ele não deixava de perceber a verdadeira situação. Conformou-se em ver sua gaiola colocada, não no meio da arena, como principal atração, e sim fora, perto das jaulas dos animais - local, afinal de contas, bastante acessível. Cartazes grandes e vistosos emolduravam a jaula, anunciando o tipo de espetáculo. Quando o público vinha, nos intervalos, ver as feras, tinha de passar pelo jejuador e algumas pessoas paravam, por momentos. Talvez se demorassem por mais tempo, não fossem os empurrões dos que vinham atrás, pela estreita passagem, e que não compreendiam o motivo pelo qual eram detidos. Isto impedia que os primeiros o examinassem com calma. Foi esta a razão que fez com que o artista que aguardara tais visitas como o maior acontecimento de sua vida, começasse a temê-las. A princípio, mal podia esperar pelos intervalos. Era excitante ver a multidão escoar para o seu lado, até que (tarde demais!) apesar do obstinado e quase consciente desejo de iludir-se, teve que se render à evidência. Convenceu-se de que aquelas pessoas, a julgar pela sua atitude, procuravam apenas visitar os animais. A sensação mais agradável sempre fora vê-los de longe. Quando se aproximavam, ficava aturdido com os gritos e insultos dos dois grupos dissidentes, sempre renovados, constituídos, um, pelos que desejavam parar para observá-lo (não por real interesse e sim por teimosia) e o segundo, por aqueles que ansiavam por ver as feras. Logo começou a detestar mais os primeiros. Depois que passava o maior número, vinham os retardatários. Embora pudessem contemplá-lo à vontade, apressavam-se, sem nem mesmo olhá-lo, tal o medo de chegarem atrasados às jaulas dos animais. Raramente acontecia ter ele um golpe de sorte, quando um pai de família parava com os filhos, apontando-o e explicando o fenômeno, contando histórias de anos passados, quando ele próprio assistira a espetáculos mais emocionantes. As crianças, sem nada entender, pois nem na escola e nem em casa haviam sido preparadas para isto (que lhes importava o jejum?) indicavam, pelo brilho dos olhos, que dias mais auspiciosos estavam para vir. Talvez as coisas corressem melhor, pensava o artista, se não o tivessem colocado tão perto dos animais. Isto tornava ao povo fácil a escolha, mesmo não se levando em consideração que ele sofria com o cheiro desagradável, a inquietação das feras à noite, a passagem dos pedaços de carne crua, o ruído na hora de serem alimentados, coisas que o deprimiam profundamente. Mas não ousava queixar-se. Afinal de contas, devia aos animais a afluência de tantas pessoas e sempre podia haver alguém que o notasse e lembrasse de sugerir lugar mais isolado para a gaiola, caso ele chamasse atenção para sua existência e para o fato de, na realidade, nada mais ser do que um obstáculo à passagem do público.
(Continua...) Gabs
11:26 PM
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Domingo, Janeiro 12, 2003
a briba na camisa.
em breve
na pele.
Gabs
11:56 AM
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Sábado, Janeiro 11, 2003
Meu primeiro contato com Kafka foi através deste livro, em quadrinhos, ilustrado por Peter Kuper. Desista! e outras histórias.
Se não me engano, a primeira vez que li sobre o livro foi no PUB, no Jornal O POVO. Se o foi, Weaver tem parte nesta história.
Lógico que já conhecia de fama o escritor, que acabou emprestando o sobrenome a um adjetivo quase universal e que em quase todo idioma se assemelha a uma definição em comum, perturbador, absurdo. É o que kafkaniano é. Quem já leu O Homem Nu que o diga.
Depois de "Desista!...", foi a vez de eu devorar o Metamorfose e outros em seqüência. Leituras sempre recompensadoras, por mais que às vezes doam no fundo do estômago.
Peter Kuper é ilustrador de importantes revistas norte-americanas e ficou conhecido mundialmente graças a sua tira mais conhecida, a SPY vs SPY, publicada na revista MAD. Seu próximo projeto é uma adaptação de outra obra de Kafka, A Metamorfose, a ser publicada ainda em 2003. É só esperar. Gabs
3:57 PM
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O ARTISTA DA FOME
(Continuação - Parte 2)
Ele vira-se obrigado a aceitar tal reação e, com o tempo, a ela se habituara, mas a íntima satisfação persistia e nunca, justiça seja feita, deixara a jaula por espontânea vontade, quando chegava o término da prova. O prazo máximo fora fixado em quarenta dias pelo empresário, que não lhe permitia ir além, nem mesmo nas grandes cidades. Havia boas razões para isso. A experiência demonstrara que, durante 40 dias, a curiosidade do público podia ser mantida pela pressão de anúncios, mas depois disso o povo começa a se desinteressar, diminuindo o numero de simpatizantes. Isto variava, naturalmente, de uma cidade a outra, entre este ou aquele país, mas em geral 40 dias era o limite.
Assim, no 40o dia abria-se a porta da jaula engrinaldada de flores. Entusiásticos espectadores enchiam o local, entravam na jaula, para verificar o resultado da prova, que era anunciado por meio de alto-falante. Finalmente apareciam duas moças, felizes por terem sido escolhidas para tal honraria. Iam ajudar o artista a descer os poucos degraus que levavam à mesa onde se achava a refeição cuidadosamente preparada para um homem em suas condições físicas. Neste momento, o jejuador sempre se mostrava obstinado. Verdade que entregava os braços descarnados às duas moças que sobre ele se inclinavam para auxiliá-lo, mas não queria saber de levantar. Por que interromper o jejum especialmente neste instante, após 40 dias? Agüentara por muito tempo: por que desistir agora, quando se achava em plena forma, ou, para ser exato, ainda não estava em sua melhor forma? Por que negar-lhe a fama que teria, se continuasse, a glória de ser, não apenas o recordista da fama de todos os tempos (o que talvez já fosse) mas a de sobrepujar seu próprio feito, com uma demonstração que ninguém julgaria possível? Ele sabia não haver limite para sua resistência. Já que o público parecia admirá-lo tanto, por que não se mostrava mais paciente? Se ele podia suportar uma abstinência prolongada, por que não agüentavam eles o espetáculo? Além do mais, estava cansado, achava-se sentado confortavelmente sobre a palha, e agora lhe viam exigir que se levantasse para comer! Só de pensar nisto sentia náusea e somente a presença das moças o impedia de manifestá-la e, assim mesmo, com esforço. Fitou-as, aparentemente tão amigas, mas na realidade cruéis; e sacudiu a cabeça que lhe pesava no pescoço enfraquecido. Aconteceu então, o que sempre acontecia. O empresário adiantou-se sem dizer palavra - a banda impossibilitava qualquer espécie de discurso - ergueu os braços acima do artista, como que a convidar o céu a olhar para aquela pobre criatura ali na palha, mártir que em verdade era, embora noutro sentido. Com exageradas precauções, agarrou-lhe a cintura emaciada, para que pudessem apreciar devidamente a sua frágil condição, e entregou-o as moças, muito pálidas, dando-lhes disfarçadamente uma sacudidela que fez vacilarem suas pernas trôpegas. O artista submeteu-se agora totalmente, a cabeça tombada sobre o peito, como se ali tivesse ido parar por acaso. O corpo foi puxado para fora, os joelhos tentavam firmar-se um no outro, no instinto de conservação, as pernas se arrastavam como se ele não pisasse terreno firme e, apesar disso, o procurasse. Leve como pluma, tentou apoiar-se a uma das moças. Ofegante, ela olhou à volta em busca de socorro, parecendo achar que o posto de honra não correspondia à expectativa, e espichou o pescoço o mais que pôde para livrá-lo do contato desagradável. Vendo que era impossível e que sua mais feliz companheira não lhe vinha em auxílio, limitando-se a segurar na mão trêmula o feixe de ossos que era a mão do artista, rompeu em pranto, com grande gozo dos espectadores. Teve que ser substituída por um funcionário, que ali se achava de prontidão. Chegou a hora da comida e o empresário conseguiu enfiar alguma coisa por entre os lábios de seu protegido, que parecia a ponto de desmaiar. Falava ao mesmo tempo, alegremente, para que ninguém notasse o estado do jejuador. Depois, foi feito ao público um brinde, aparentemente instigado por um murmúrio do artista ao ouvido do empresário. A banda confirmou-o com um vigoroso rufar de tambores e o povo foi-se dissolvendo, parecendo todos satisfeitos com o que tinham visto, com exceção do homem que se exibira, que nunca se sentia satisfeito.
Assim viveu muitos anos, com pequenos intervalos de recuperação, em plena glória, admirado pelo mundo, mas apesar disto infeliz, tanto mais que ninguém parecia levar a sério seu desgosto. Que palavras de conforto precisaria ele ouvir? Que mais poderia desejar? Quando uma pessoa de boa vontade, dele se apiedando, tentava consolá-lo, dizendo que o jejum devia ser a causa de sua tristeza, acontecia ver-se ele tomado de cólera, principalmente quando a prova já ia adiantada. Com alarme geral, punha-se a sacudir as grades da jaula, tal animal selvagem. Mas o empresário tinha meios de pôr cobro a essas explosões, com as quais o artista gostava de se exibir. Desculpava-se publicamente por tal procedimento. Devia ser relevado, dizia ele, por causa da irritabilidade provocada pela abstinência, que pessoas bem alimentadas não estavam em condições de compreender. Depois, numa transição natural, mencionava a também incompreensível jactância do homem que se dizia capaz de jejuar por prazo maior ainda, elogiava-lhe a ambição, a boa vontade, o espírito de sacrifício implícitos em semelhante declaração. Dava em seguida o contragolpe, trazendo os fotógrafos que iriam vender ao público retratos onde se veria o jejuador, no quadragésimo dia, caído na palha, quase morto de exaustão. Essa distorção da verdade, embora conhecida do artista, tirava-lhe a coragem, deixando-o mais abatido ainda. Aquilo que era apenas conseqüência do precoce término do jejum era apresentado como causa! Impossível lutar contra a geral incompreensão. Inúmeras vezes, com o máximo da boa vontade, ficava perto das grades, ouvindo palavras do empresário, mas, assim que chegavam os fotógrafos, caía de novo na palha, com um gemido, e o público, tranqüilizado, podia de novo aproximar-se para contemplá-lo.
Anos mais tarde, quando testemunhas de tais cenas as relembravam, não podiam às vezes compreendê-las. É que, neste meio-tempo, o interesse por essas exibições esmorecera, tendo acontecido quase que da noite para o dia. Talvez houvesse razões profundas para o fato, mas quem iria se preocupar em analisá-las? De qualquer maneira, o mimado artista da fome viu-se um belo dia abandonado pelas pessoas ávidas de divertimento, que iam agora em busca de espetáculos mais atraentes. Num derradeiro esforço, o empresário correu com ele metade da Europa, a ver se a antiga simpatia poderia ser reavivada. Em vão. Em toda a parte, como que por secreto acordo, havia positiva repulsa pelos jejuadores profissionais. Naturalmente isto não poderia ter surgido assim tão de repente. Muitos dos sintomas ominosos, aos quais eles não tinham dado suficiente atenção, ou que haviam mesmo sido ignorados na embriaguez do triunfo, voltavam agora à memória, embora fosse tarde demais. O interesse pelos jejuadores certamente teria o seu recrudescimento, um dia, mas isto não era consolo para os que atualmente viviam. Que poderia então fazer o artista da fome? Fora aplaudido por milhares de pessoas e não queria agora conformar-se com exibições em barracas de feira, nas aldeias. Quanto a adotar outra profissão, não somente estava muito velho, como era fanático pela sua. Assim, despediu-se do empresário, companheiro de uma carreira inigualável, e firmou contrato com um grande circo. Para não ferir a própria susceptibilidade, evitou ler-lhe as cláusulas.
(Continua...) Gabs
3:42 PM
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Foi ontem. O dia. Hoje, a festa.
Algumas ligações que fazem o dia mais feliz e me dão a certeza de ter os melhores amigos do mundo. Que dia legal. Até no trabalho o tempo (sempre ele!) passou depressa.
Visitas no horário do almoço são ótimas. Principalmente quando nos sentimos bem-recebidos à casa. Almoço e boa companhia no restaurante do shopping.
No meio do caminho, no meio do mundo, em calçadas e bares improvisados, cervejas geladas em copos de requeijão, boas risadas, conversas agradáveis. Tem gente que tem uma aura boa. Faz a gente sentir-se bem em estar perto. Gente legal.
Pessoas erraram a data e deram de cara com o Sambão do Ritz, o evento que adiou a festa para hoje, mais tarde. Nada que não pudesse ser contornado com uma estratégica cervejinha no Bar do Avião.
Teria que escrever muitas linhas e linkar muita gente aqui que deixou este meu dia melhor. Todos os que me ligaram, mandaram mensagens no celular, deixaram comentários ou me abraçaram de alguma forma. São especiais. Obrigado.
Putz! Esta cerveja e esta lua deixam a gente emotivo como o diabo...
Gabs
5:11 AM
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Perde-se tempo demais em elucubrações.
As verdades e vontades são epidérmicas. Estão lá.
Basta você arranhar a pele e está lá, na sua unha.
Gabs
4:53 AM
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Quinta-feira, Janeiro 09, 2003
ROSEBUD
Gabs
9:04 PM
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É o tempo um elástico, destes que se esticam e voltam ao estado inicial; é o tempo uma mola. As primeiras semanas deste ano tem voado. O tempo é pássaro. O tempo é alado.
À meia-noite de hoje encerra-se o meu Inferno Astral, apesar de eu particularmente não confiar em excesso nestes misticismos astrológicos e cosmogonias.
Está bem, eu me rendo. Sou destes que acreditam em horóscopos, signos solares, ascendentes e biorritmos. Mas Inferno Astral não! Gabs
9:01 PM
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O músculo contrái ao toque do metal frio e sente a dor da agulha que penetra no braço. Em instantes, um ardor toma conta do braço em contrações involuntárias. "São os corticóides", ela diz, a moça do ambulatório.
A mão fica pesada e seca, o abrir-e-fechar mais lento, o braço pesa. "Está quase no fim, espera". Sorrio de canto de boca, cúmplice. A testa dobra com a dor e a sensação do líquido que da ampola segue o rumo de minha circulação. O líquido quente e salubre segue caminho pelo braço, pelos músculos, chega em voltas no estômago e em instantes é como se uma banda de meu corpo fosse apartada do resto. O lado direito ainda contrái-se involuntário enquanto o resto do corpo apenas assiste. Estou sentado e por um instante lembro-me de todas as dores possíveis tentando esquecer aquela que no momento era a única física.
"Pronto. Já foi". Devem ter sido os 30 segundos mais longos de minha vida. Mais do que os 30 segundos da propaganda do Leite de Cabra. Mais do que doação de sangue, do que dor de soro espetado na veia, dor de parto. Do que dor de cotovelo. Esta dói bastante, você pode até dizer, mas isso porque talvez você nunca tenha recebido uma injeção de corticóides no braço. Garanto.
Toda dor tem seu alívio. Alguns mais imediatos. Gabs
8:58 PM
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E um aviso, antes de eu picar a mula rumo a Clínica São Carlos:
Sábado, dia 11 de Janeiro de 2003 vai ter festa no Ritz Café, com a banda Vitrola 78 e os DJs Amigos de Lídia Brondi.
Se eu melhorar daqui até lá, vai ter a Bitten Blues também.
Vá. Eu, obviamente, vou, mesmo doente.
Gabs
12:17 PM
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Acho que o último post, mesmo não-intencionalmente, foi autoral o suficiente.
Gabs
12:11 PM
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Como desgraça pouca é bobagem, às vésperas de meu natalício sou acometido por uma crise de garganta, uma gripe e moleza no corpo.
Deus sabe como consegui dar aula ontem a noite, me mantendo em pé por duas horas. Deus sabe. Cheguei em casa e tanto o remédio como as refeições do dia foram expulsas em golfadas - asco.
Em instantes, estarei indo ao otorrinolaringologista receber a prescrição do que tomar para estar de pé, no Sábado às 22h no Ritz.
Só espero que não inclua antibióticos. Gabs
12:08 PM
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Gabriel, o transcriptor.
Este blog está cada vez menos autoral.
Devo me policiar?
Gabs
12:02 PM
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Em partes, como filme da Globo, Kafka.
O artista da fome
Franz Kafka
O interesse pelos jejuadores profissionais decresceu sensivelmente nos últimos decênios. Antes, convinha aos empresários organizar tais espetáculos, mas atualmente isto se tornou quase impossível. Vivemos num mundo diferente. Houve época em que a cidade inteira sentia viva curiosidade pelo artista da fome, aumentando a excitação à medida que o jejum se prolongava, querendo todos vê-lo ao menos uma vez por dia. Havia mesmo pessoas que compravam bilhetes para os últimos espetáculos, sentando-se desde manhã até a noite diante das grades da jaula. As exibições noturnas eram realçadas por archotes e, quando a temperatura era amena, levavam a jaula para o ar livre, sendo o jejuador mostrado às crianças como divertimento especial. Os adultos, muitas vezes consideravam aquilo pilhéria, aceita por estar em moda, mas as crianças ficavam boquiabertas, de mãos dadas para se sentirem mais seguras, maravilhando-se ante o homem pálido, de costelas salientes, que vestia justas calças negras e não tinha sequer uma cadeira, sentando-se na palha espalhada no chão. Às vezes ele inclinava a cabeça cortesmente, ou respondia com um sorriso constrangido às perguntas que lhe eram feitas, estendendo de vez o braço através das grades, para que verificassem como estava magro. Recolhia-se depois ao seu mutismo, não prestando atenção a nada nem a ninguém, nem mesmo ao relógio para ele tão importante e que era a única peça de mobília na jaula. Ficava a olhar o vazio, de pálpebras semicerradas, de vez em quando alcançando um pequeno copo d'água e tomando um golezinho para umedecer os lábios.
Além dos espectadores comuns, havia permanentemente vigias escolhidos pelo público, que se revezavam. Por estranho que pareça, em geral eram açougueiros, em grupos de três, que tinham por obrigação observar o jejuador dia e noite, para evitar que ingerisse disfarçadamente algum alimento. Mera formalidade, instituída para tranqüilizar o povo, pois os iniciados sabiam perfeitamente bem que, fossem quais fossem as circunstâncias, nem mesmo a força o artista se resolveria a quebrar o jejum, durante a prova. A honra da profissão o impedia. Nem todos os espectadores, naturalmente, eram capazes desta compreensão. Freqüentemente havia grupos de vigilantes noturnos que relaxavam o cumprimento do dever, retirando-se para um canto, onde se deixavam empolgar por um jogo de cartas, com a evidente intenção de dar ao jejuador ensejo de tomar alimento, que eles supunham existir em algum esconderijo. Nada aborrecia mais o artista que semelhantes vigias. Faziam-no sentir-se infeliz e tornavam a abstinência insuportável. Às vezes conseguia dominar suficientemente a fraqueza para cantar, o mais que lhe era possível, tentando provar a injustiça de tais suposições. Isto de nada adiantava, pois os homens apenas admiravam a habilidade que lhe permitia comer enquanto cantava. Apreciava mais os guardas que se sentavam perto das grades e que, não se contentando com a parca iluminação do local, lançavam sobre ele o clarão direto das lanternas elétricas que o empresário pusera à sua disposição. A luz dura não o incomodava.
De qualquer maneira, não podia mesmo dormir, mas conseguia cochilar, sob qualquer luz, fosse qual fosse a hora, mesmo quando a sala se achava repleta de espectadores ruidosos. Ficava satisfeito por poder passar uma noite insone em companhia de tais vigias, estando sempre disposto a pilheriar com eles, contendo-lhe histórias de sua vida nômade, qualquer coisa que os conservasse acordados para demonstrar que não tinha comida na jaula e era capaz de uma abstinência que nenhum deles suportaria. Mas o momento mais feliz era quando chegava a manhã e vinham servir aos guardas, a suas expensas, um farto desjejum, ao qual eles se atiravam com feroz apetite de homens robustos, após cansativa noite de vigília. Naturalmente havia quem alegasse ser tal refeição uma desleal tentativa de suborno, mas isso era ir longe demais. Quando essas pessoas eram convidadas a participar de uma noite de guarda, apenas por amor a arte, sem a expectativa do café da manhã esquivavam-se, embora continuassem teimosamente a manter suas dúvidas.
Tais suspeitas, no entanto, eram inevitáveis na profissão. Impossível, naturalmente, ficar uma pessoa e observá-lo continuamente, dia e noite, e ninguém poderia garantir, por experiência própria, que o jejum fora rigoroso e ininterrupto. Somente o artista sabia disso, sendo, portanto, o único realmente convicto. Mas, por outros motivos, nunca estava verdadeiramente satisfeito. Talvez não fosse apenas o jejum que o tivesse reduzido àquele estado de magreza que fazia com que muitas pessoas se afastassem, embora a contragosto, por não poderem suportar o espetáculo. A insatisfação para consigo mesmo talvez fosse a verdadeira causa de seu depauperamento. Só ele sabia o que não era dado a saber nem mesmo a outros iniciados: como era fácil jejuar. A coisa mais fácil do mundo. Não fazia segredo disto, mas o povo não lhe dava crédito. Quando muito, consideravam-no modesto, mas a maioria achava que ele estava querendo fazer publicidade, ou, então, que se tratava de um trapaceiro que descobrira meio de tornar fácil o jejum e cinicamente o confessava.
(Continua...)
Gabs
12:00 PM
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Quarta-feira, Janeiro 08, 2003
Já que o monotema da vez é Kafka, se você só leu "A Metamorfose", devia largar tudo e ir correndo atrás de ler "O Artista da Fome". Em algumas edições a venda nas livrarias, os dois livros vem juntos num só volume. Já vi variadas vezes em prateleiras de sebos a preços abaixo de 3 reais.
Muito, mas muito mais impressionante do que a trama absurdamente surreal do livro mais famoso dele. Talvez pelo fato de ser tão verossímel que te faz embrulhar o estômago e segurar as lágrimas ao fim do último parágrafo.
Gabs
10:20 AM
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E para acabar de vez com o pseudo-otimismo, a que lançou Poe em tradução de Fernando Pessoa:
O Corvo
(The Raven)
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhão também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo one ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Édem de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais! Gabs
12:56 AM
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Tenho uma relação estranha com as épocas do ano, suas fases, estações e períodos. Há quem atribua estas sensações que nos acometem de tempos em tempos ao tal Inferno Astral. Eu particularmente acho muito cômodo buscar explicação na Astrologia para explicar fenômenos inerentes a nossa forma de perceber as mudanças que os meses trazem. Porque é inegável que os meses tem este poder de manipulação sobre nosso comportamento; qualquer atribuição de reciprocidade é equivocada. As idiossincrasias são bem mais complexas que quaisquer explicações astrológicas.
Digo isso porque a Barbra notou a recorrência desta relação com o tempo no que eu costumo escrever. Talvez por isso, Borges, Saramago e García Marquéz sejam a tríade literária para mim.
Não há quem tenha entendido o tempo melhor que Borges, com suas metáforas e recorrências labirínticas; o descrito melhor que García Marquéz, com sua forma de fazer-nos sentir um ano se arrastar por mais de cem e vice-versa; e o sentido melhor que Saramago e seu poder de nos fazer submergir na sua literatura náufraga, hora nos roubando o ar e outra emprestando o escafandro.
Há na literatura exemplos suficientes desta relação do escrito com o tempo; talvez por conta do desafio de se descrever o que se pode apenas sentir ou sugerir. As próprias convenções de mensuração do tempo descambam no cômodo.
Prefiro acreditar que as épocas do ano e proximidade com algumas datas inspiram sensações coletivas, independente de serem relacionadas a horóscopos, astrologias e afins. Há o derrotismo de Outubro e o pseudo-otimismo de Janeiro.
Você entendeu direitinho.
Gabs
12:46 AM
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Com a palavra, quem sabe.
"Conheci a obra de Franz Kafka em 1917 e agora confesso que fui indigno da obra de Franz Kafka. Eu o li em uma revista expressionista, profissionalmente moderna, que havia se consagrado a inventar a falta de pontuação; a falta de rimas, a falta de maiúsculas e o abuso de metáforas simuladas e aparatosas palavras compostas próprias dos jovens desse tempo e talvez dos jovens de todos os tempos. Entre esse estalido impresso, figurava um apólogo, contraposto à corrente, que levava a assistência de Franz Kafka e que considerei inexplicavelmente insípido. Recordo que li uma fábula sua, escrita de maneira simples, e me apareceu incompreensível sua publicação. Passei frente à revelação e não a percebi. Também devo confessar que aderia plenamente a este estilo barroco e que buscava imitá-lo. Mais tarde seus livros chegaram às minhas mãos e então me dei conta da minha insensibilidade e do meu erro imperdoável. (...) O destino de Kafka consiste em transformar os acontecimentos e as agonias em fábulas. Narra pesadelos sórdidos em um estilo límpido. E não deixa de ser notável que ele tenha sido leitor das Escrituras e admirador fervoroso de Flaubert, de Goethe e de Swift. Kafka é o maior escritor clássico deste tumultuado e estranho século." (Jorge Luís Borges) Gabs
12:24 AM
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O Pião (Franz Kafka)
Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita.
Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora.
Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas - era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando.
E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças - que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos - afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião mal lançado. Gabs
12:18 AM
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Segunda-feira, Janeiro 06, 2003
Never more, said the raven, Never more.
Não, Poe. Ainda não.
Ainda não é noite - os dias são mais longos nesta época do ano. Gabs
3:32 PM
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Algumas resoluções para o ano que se inicia:
1. Nunca mais usar de licenças-poéticas, afinal males-entendidos são o que hão;
2. Evitar como a morte os trocadilhos infames. Esta sim é uma boa reza-o-lução;
3. Não usar de subterfúgios, nem superterfúgios (acabo de quebrar as duas primeiras resoluções; bom começo este);
4. Ser menos vago, mesmo que...
5. Ser menos repetitivo;
5. Ser menos repetitivo;
5. Ser menos repetitivo;
5. Ser menos repetitivo;
6. Tentar ser menos prolixo. Esta sim será fruto de um labore excessivo. Já o sou demasiado.
7. Esquecer todas as resoluções tão logo a primeira semana do ano acabe.
Feliz 2003 para todo mundo! Gabs
2:32 PM
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Quarta-feira, Janeiro 01, 2003
Ai de mim! - disse o rato - O mundo vai ficando cada vez menor.
No início era tão grande que eu me assustava e não parava de correr, e corri até ficar feliz ao enxergar muralhas ao longe, à esquerda e à direita, mas estas longas muralhas estreitaram-se tão rapidamente, que eis-me já no último quarto, e ali no canto está a ratoeira para a qual me devo dirigir.
- Tudo o que tens a fazer - disse o gato - é mudar de direção.
E comeu o rato.
(Uma pequena fábula - Franz Kafka)
Gabs
9:33 PM
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dica:
Se você tiver o Adobe Acrobat instalado no computador, dê uma olhada neste link.
É da livraria virtual CultVox, onde você pode baixar gratuitamente os e-books que quiser, imprimir ou ler no computador. Tem um monte de clássicos.
Algumas sugestões (podem clicar para baixar!):
» Uma Estação no Inferno - Artur Rimbaud
» Poemas - Jorge Luis Borges
» A Confissão - Guy de Maupassant
» Contos Vários - Kafka
» A Metamorfose - Kafka
» Um Artista da Fome - Kafka (meu favorito dele)
» Silêncio - Edgar Allan Poe
» Sombra - Edgar Allan Poe
» O Gato Preto - Edgar Allan Poe (o melhor, depois de "O Poço e o Pêndulo" - que não tem)
» O Corvo - Edgar Allan Poe (ótimo!)
» Contos d´escárnio - Hilda Hilst
» Cartas de um Sedutor - Hilda Hilst
» Estar sendo. Ter sido - Hilda Hilst
» Qádos - Hilda Hilst
» Édipo Rei - Sófocles
» A Revolução dos bichos - George Orwell
» Eu - Augusto dos Anjos
» Poemas Malditos - Álvares de Azevedo
» Poemas Irônicos, venenosos e sarcásticos - Álvares de Azevedo
» Os Sertões - Euclides da Cunha
» Poemas diversos - Alberto Caeiro (você sabe...)
» A Nova Califórnia - Lima Barreto
» Triste fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto
» A Luneta Mágica - Joaquim Manuel de Macedo
Mais autores de língua portuguesa aqui.
Mais filosofia aqui.
Nota curiosa: O livro da lei, de Aleyster Crowley, tem exatos 66,6kb para o download. Sinistro. Gabs
5:15 PM
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