Segunda-feira, Março 31, 2003
Aniversário do Pedro hoje, um dos caras mais geniais e talentosos que conheço.
Parabéns, rapaz!
Tô saindo de casa daqui a pouco para ver se filo uma cerveja na casa dele.
Gabs
8:10 PM
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Adentraram na sorveteria e escolheram uma mesa. Ele pediu um café a garçonete - o local também era uma cafeteria - e fez questão de explicar-lhe detalhadamente como gostava da consistência do chantilly e da disposição da canela em pó sobre o creme. Ela, a esposa, levantou-se em direção ao balcão multicolorido dos sorvetes e pediu duas bolas em uma casquinha que lembrava um lenço amassado e ajustava-se anatomicamente a suas mãos.
Faziam o mesmo programa há muito tempo. Saírem juntos era saudável ao relacionamento, pensavam os dois apesar de nunca o terem dito um ao outro.
Na mesa, sentados frente a frente ele observava o ritmo das pessoas na calçada, através da janela de vidro, ela concentrava-se no sorvete que teimava em derreter próximo a beirada da casquinha. Pensavam em coisas distintas. Ele, talvez pensasse sobre os rumos de seu time favorito de futebol ou sobre a instabilidade na empresa onde trabalhava. Ela talvez pensasse nas amigas com filhos, que não tinha, ou talvez na próxima fatura do cartão de crédito. Mas não falavam a respeito. Falar de problemas é prejudicial a um relacionamento, pensavam os dois apesar de nunca o terem dito um ao outro.
Ele quis falar-lhe sobre um grupo de estudantes que passaram rindo alto na calçada, quis falar de uma velha senhora que era engraçada debruçada na janela do automóvel enquanto o marido fazia a baliza. Havia muita vida passando do lado de fora da sorveteria. Ela parecia compenetrada demais caçando uma cereja incrustrada no sorvete e ele preferiu não desviar-lhe a atenção. Ela pensava no sobrinho que os visitava sempre e dava um sopro de vida ao apartamento adultizado correndo atrás de bolinhas de meia improvisadas e brincando de luta com seu reflexo no espelho da parede da sala. Queria um filho como o de sua irmã, quis falar ao seu marido, mas não o fez. Olhava a agitação das crianças com seus pais no recinto. Havia muita vida do lado de dentro da sorveteria. Ele parecia compenetrado demais observando o mundo pela vidraça da sorveteria e ela preferiu não desviar-lhe a atenção.
Havia muito as saídas eram assim. O silêncio prolongado na mesa e aceito com normalidade. Por que incomodar o outro com trivialidades? Ambos procuravam vida em coisas distintas. Ele, no fluxo da rua; ela, nas crianças acompanhadas na sorveteria. Não se davam conta nem mesmo de que pareciam estar em locais distintos. Ela tomava um sorvete, ele um café. Ela estava na sorveteria, ele em uma cafeteria. Estavam no mesmo espaço e há quilômetros de distância. Não se davam conta.
Terminou o café e pediu a conta, o sorvete já fora pago. Levantaram-se em silêncio, saíram da loja e entraram no carro sem trocar uma palavra. Locomoviam-se como mortos de volta ao apartamento e, lá fora, a vida continuava seu percurso. Gabs
8:00 PM
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Mais um conto fantástico do Borges. Quem tiver paciência pra ler será bem recompensado no final.
Gabs
2:18 PM
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O livro de areia
(Jorge Luis Borges)
A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes... Não, decididamente não é este, more geometrico, o melhor modo de iniciar meu relato.
Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico.
Vivo só, num quarto andar da Rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal conformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valise cinza na mão. Logo senti que era estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu escasso cabelo ruivo, quase branco, à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.
Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.
- Vendo bíblias - disse.
Não sem pedantismo respondi-lhe:
- Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são precisamente biblias o que me falta.
Ao fim de um silêncio respondeu:
- Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir.
Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Hali Writ e, abaixo, Bombay.
- Será do século dezenove - observei.
- Não sei. Não soube nunca - foi a resposta.
Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 40.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino.
Foi então que o desconhecido disse:
- Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais.
Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.
Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar meu desconcerto, disse:
- Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade?
- Não - replicou.
Logo baixou a voz como que para me confiar um segredo:
- Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.
Pediu-me que procurasse a primeira folha.
Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.
- Agora procure o final.
Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era minha:
- Isto não pode ser.
Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse:
- Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.
Depois, como se pensasse em voz alta:
- Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.
Suas considerações me irritaram. Perguntei:
- O senhor é religioso, sem dúvida?
- Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca de seu livro diabólico.
Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que soube que era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume.
- E de Robbie Burns - corrigiu.
Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei:
- O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico?
- Não. Ofereço-o ao senhor - replicou e fixou uma soma elevada.
Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano.
- Proponho-lhe uma troca - disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais.
- A black letter Wiclif! - murmurou.
Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo.
- Trato feito - disse.
Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as.
Falamos da Índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome.
Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de As mil e uma Noites.
Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência.
Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.
O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.
Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta de fumaça.
Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta.
Sinto um pouco de alívio, mas não quero nem passar pela Rua México.
Gabs
2:16 PM
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Esta semana descobri que a Editora Globo lançou a obra completa do meu escritor favorito em quatro edições de capa-dura e encadernadas ao módico preço de 54 reais cada livro. Mesmo sabendo que não poderei comprar a coleção inteira - a não ser que me programe para isso até o natal - o preço, analisando de fora, até compensa. Cada livro do Jorge Luís Borges é no mínimo 25 reais e muitos deles não se encontra facilmente por aí. Na ponta do lápis eu gastaria no mínimo 3 ou 4 vezes mais do que os 216 reais que gastaria para ter a obra completa e ainda levaria bem mais tempo fazendo encomendas e procurando em recantos obscuros de livrarias e sebos.
Mesmo assim...
Gabs
2:14 PM
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Certa vez a Barbra escreveu que os fins calmos são melhores que os começos, de qualquer tipo. E eu acho, neste momento, que este sentimento de satisfação com a semana que passou é uma ótima confirmação desta frase.
A semana começou de cabeça pra baixo, muita coisa ruim junta e terminou de uma maneira tão leve que estou besta até agora, sem nem saber como agradecer a todos que a tornaram especial.
Tenho ótimos amigos. Obrigado.
E o fim calmo acaba injetando uma nova dose de otimismo no novo começo.
Gabs
12:49 PM
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Terça-feira, Março 25, 2003
Éder era um destes caras que, mesmo sem grandes intimidades, era daquele seleto grupo de amigos que você ficava feliz em ver e se sentia a vontade pra conversar. Era daqueles que se sentia amigo de todos e a quem todos podiam confidenciar qualquer coisa. Era um dos grandes amigos do meu irmão. E já era meu amigo antes disso.
Nunca o vi falar mal de ninguém, era um conciliador. Garoto religioso, participava do mesmo grupo de oração que minha irmã e, ao contrário dos cristãos hipócritas, não vivia para julgar o comportamento alheio. Tão tranquilo que por vezes achava estranho nunca tê-lo visto com raiva de ninguém. Vivia sorrindo, sem fazer mal a ninguém e isso que me fazia sempre lembrar de meu irmão sempre que o via.
Sonhava em ser cantor, era backing vocal do grupo da igreja, nunca bebeu ou fumou - o que o colocava num grupo que admiro por não poder pertencer. Me deu uma força medonha na época da morte do meu irmão e ia diariamente a minha casa nesta época para dar força aos meus pais. Tinha 19 anos.
Domingo a noite, um motorista embriagado a 120km por hora pôs um fim prematuro nesta história. Éder voltava de um retiro do grupo de oração. Tinha viajado na sexta-feira e sua mãe o esperava no domingo para provar do bolo favorito dele, que ela havia preparado para seu retorno.
Por mais que eu tente, não consigo entender como estas coisas podem acontecer a gente como ele. Estar na hora errada, no local errado. Imagino que se ele tivesse parado alguns quarteirões antes para amarrar os cadarços não estaria no ponto da calçada onde o carro desgovernado subiu naquela hora fatídica. Pensar nestas coisas me dá arrepios.
Não tive coragem de ver o corpo no velório nem de acompanhar a missa de corpo presente. Fiquei fora da capela do cemitério fumando um cigarro, olhando as lápides enfileiradas e acompanhando o formigueiro de gente ao mesmo tempo surpresa e indignada que se amontoava na entrada. Prefiro lembrar do amigo vivo a guardar como última lembrança seu corpo morto em um caixão.
O caminho entre as lápides do S. João Batista é labiríntico. E no meio das curvas muita gente do meu antigo bairro que não via há tempos. A expontaneadade dos reencontros era abalada pelo clima da situação. Os amigos, com violões, cantavam as músicas que ele gostava de cantar, enquanto o caixão descia. Era estranho ouvir estas canções sem a voz dele no meio. Assim como é estranho muita coisa até agora. Gabs
12:49 PM
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Segunda-feira, Março 24, 2003
Não estou muito legal para postar hoje, quiçá mais tarde.
Estou de cama desde ontem e, de madrugada, recebi uma notícia péssima.
Mais tarde dou detalhes. Devo voltar pra cama agora.
Gabs
11:20 AM
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Sexta-feira, Março 21, 2003
Seria menos assustador se ficasse apenas no campo da ficção. Gabs
12:55 PM
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Quinta-feira, Março 20, 2003
Este blog não estava abandonado às moscas e nem estava mais servindo ao propósito inicial - o de ser mais literário que pessoal.
Espero poder reverter. Este blog já estava virando um espaço de narcisismos egocêntricos e fotográficos.
Voltemos a programação normal.
mensagem subliminar:assistam ao Pianista. É um ótimo filme. Gabs
2:56 AM
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O zine Faniquito de Papel sempre me dá uma injeção de inspiração.
Recebi três, hoje, da sua autora ilustre.
Gabs
2:31 AM
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Da mesma forma, gosto de metáforas sobre a cidade, sobre o tempo e os meses do ano.
Janeiro é otimista, Fevereiro conformista. Março?
Faz tempo que não percorro a cidade. O único percurso conhecido é aquele que me leva da casa ao trabalho. E este já foi devidamente esmiuçado. Já é perfeitamente conhecido e sem surpresas. A única referência a ele é o zigurate vermelho que ainda persiste no caminho.
Outros percursos já são tão automáticos (como o que me leva ao Dragão do Mar) que não me permitem tempo para surpreender-me.
Faltam-me os pés de antes ou o olhar de turista que sempre tive.
Até algum tempo atrás. Gabs
2:29 AM
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Adoro pequenas fábulas sobre cotidianos, rotinas e afins.
Às vezes a inspiração é assim. Vem fugidia e arredia no meio da noite e se não a agarra pelo braço, ela se vai com a mesma facilidade dos sonhos. Desvanecer é a sina das boas coisas que escolhem a noite como horário. Virar nuvem ou apenas lembrança. Gabs
2:25 AM
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O homem esquecido
São os atos prosaicos os que desencadeiam desenrolares os mais estranhos. Foi o que ele percebeu naquela manhã quando absteve-se do coffe break com os colegas de trabalho por pura vontade de ser lembrado depois.
A tela do computador a frente com cálculos e mais cálculos a serem verificados, revisados metodicamente e catalogados em sequência o ocupava enquanto estranhava a demora que estava levando para que alguém adentrasse à sala e o convidasse para juntar-se aos outros. Resignou-se, talvez estivessem todos ocupados demais em suas conversas de temas alheios.
No outro dia, experimentou repetir o feito e não juntar-se novamente aos colegas no horário do café. Julgou que desta vez seria impossível alguém não lembrar-se dele e esquecer de requisitar-lhe a companhia. Decerto alguém o tenha achado ocupado demais no dia anterior e não quis incomodá-lo com convites, refletiu, coçando a barba. Para não dar margem a estas especulações, recostou-se a cadeira giratória e desligou o computador. Quem o visse naquele momento não teria dúvidas sobre sua ociosidade. Esperou. Sua reflexão foi interrompida pelo barulho de festividades na sala contígüa. Levantou-se e dirigiu-se a entrada da sala onde seus colegas, todos, trocavam presentes entre si, fazendo brincadeiras, cada um, sobre seu amigo oculto sorteado. Sentiu-se enormemente traído naquele momento e pôs-se na porta de modo a deixar claro aos outros seu descontentamento diante da situação. Ninguém notou-lhe a presença.
Chegou em casa quase do tamanho da chave e por pouco não passa pelo buraco da fechadura. Quis contar o acontecido para a mulher, mas ele sempre a achava ocupada demais com os afazeres de casa e cansada pelo dia de trabalho na empresa mediana. Deixava as conversas para depois. Depois estes que nunca chegavam, pois a vida é repleta de agoras que urgem mais que futuros quaisquer. E, deitado com a cabeça no travesseiro, lembrou dos dois últimos dias e chorou.
Acordou resoluto. Não iria mais a empresa. Resolveu ficar em casa o dia inteiro. Iriam notar sua falta, certamente, e alguém ligaria para ele a fim de saber o motivo de tão comentada ausência. Quis contar o plano a mulher, mas esperava que ela viesse perguntar-lhe os motivos de ainda estar na cama e não pronto para pegar o ônibus para o trabalho e, esperando, ficou sentado à cabeceira enquanto a mulher terminava de arrumar-se para o trabalho.
A viu, distante, vestir o uniforme e sentar-se a mesa para tomar o café sem chamá-lo e, a uma distância cada vez maior, a viu desaparecer no corredor a caminho do trabalho sem despedir-se ou perguntar-lhe qualquer coisa. Comeu alguma coisa que tirou da geladeira e esperou a manhã inteira e metade da tarde pelo telefonema do trabalho que não ocorreu.
Sentia-se traído pela mulher que não via nele a anunciação de seu plano particular. Um homem só existe enquanto é lembrado por outros. A memória é o único recanto abstrato que separa as coisas vivas das mortas e mantém as mortas vivas por mais tempo. Resolveu voltar ao quarto e arrumar suas malas. Iria sair da casa antes da volta da esposa. Ela certamente veria o guarda-roupa vazio e procuraria saber de seu paradeiro. Saiu sem girar a chave. E, desta vez, extremamente confiante.
Buscou um hotel de beira-de-estrada alguns quilômetros fora da cidade, de modo a ser fácil o retorno quando sua presença imprescindível fosse requisitada novamente na empresa e a esposa sentisse a falta de sua companhia diária. Passou quatro longos dias examinando recortes e ocupando o tempo da maneira que fosse possível em sua solidão escolhida. Todo dia folheava o jornal indo direto a folha de pessoas desaparecidas em busca de um anúncio que tivesse seu nome e foto com informações de contato. Era inútil. Há muito tempo já tinha ficado invisível a sua esposa também.
Como último artifício, ligou para a empresa em busca de si. A telefonista não soube dizer se havia funcionário ali com tal nome, "peraí que eu vou perguntar", ouviu-a perguntando a Fulano, Sicrano e Beltrano e obtendo apenas negativas como resposta. "Olha, aqui ninguem conhece um funcionário com este nome não". Agradeceu, segurando as lágrimas e mal disfarçando o embargo na voz que saía fraquinha, quase sumindo. Conferiu mais uma vez a folha dos desaparecidos no jornal e deixou uma lágrima cair sobre uma coluna de opinião, misturando a impressão das letras e deixando aparecer o reverso do outro lado. Fechou os olhos e preparou-se para a sina dos que sofrem o esquecimento coletivo.
No dia seguinte, a faxineira do hotel encontrou apenas recortes espalhados e uma folha de jornal amassada sobre a colcha desarrumada. E por mais que tentasse, não conseguia lembrar o rosto do homem que estivera ali até a noite anterior. Era ela e o quarto vazio. Vazio. Gabs
2:24 AM
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Segunda-feira, Março 17, 2003
Não nasci para profissões convencionais.
Ser médico, advogado, engenheiro, contador, estas coisas não. Nem Publicidade deu certo.
Webdesigner, fotógrafo, músico, moviemaker são muito mais o que quero para mim. É o que é real. "Procura tua verdade", foi o que o Jânio me disse quinta passada naquela pracinha que é, literalmente, a praça de alimentação de Fortaleza. "Se o resto não é real pra ti, busca o que seja. Nós não nascemos para as profissões convencionais mesmo". Me disse com a experiência de quem rodou a América com uma mochila nas costas.
A profissão que aspiro, da vez, é a de dono de bar. Não abandonei a vontade de adotar a fotografia também não. Questão de organizar tempo.
(Engraçado que hoje eu tenho que explicar a toda vendedora, na hora de preencher um cadastro, o que é que faz um webdesigner.
Ás vezes nem eu sei a resposta. Por via das dúvidas, respondo apenas "Professor".) Gabs
4:22 PM
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Na janela, os pingos que escorriam criavam pequenos arco-íris na parede branca do quarto ao deixar a luz do Sol atravessar o vidro transparente. Através da cortina, o quarto, como um câmara escura, deixa-se invadir pela imagem em movimento da rua. os carros que passam são refletidos no teto, bem próximo a lâmpada desligada. Desconheço os nomes dos fenômenos físicos mais por ignorância que por curiosidade, mas este, quando eu era pequeno e vi pela primeira vez, convencionei chamar de cineminha.
O som dos pneus deslizando entra através das frestas e os arco-íris se multiplicam a cada nova gota que escorre. Começo a buscar definir formas nos vultos coloridos e difusos que surgem pelo teto, que carro seria este último, aquilo é uma pessoa e um cachorro ou alguém com o guarda-chuva aberto, estes dois vultos que passam pela calçada são dois velhinhos voltando da caminhada? Apenas vultos.
Os clarões transformam-se em pessoas ou as pessoas transformam-se em clarões através da vitrine que serve de projeção no teto que se torna tela? As sombras se multiplicam no teto através da vidraça. Vitrine?
Fecho os olhos e um sorriso me vem a mente. Enxergo beleza maior no espetáculo dos mini arco-íris na parede e vejo o cotidiano de minha rua nos clarões do teto. Lembro da música que escolhi e mandei a ela. O sorriso derrama poesia em meus olhos fechados e cada passo difuso torna-se mais nítido na sua presença hipotética. Cada clarão é como um dia depois de outro dia.
Ela passa sem ver seu vigia catando a poesia que entorna no chão. Gabs
4:02 PM
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Paramos de contabilizar as fotos que os amigos (e nós) tiramos em Guaramiranga.
Está bem perto de 200, somente as fotos dos dois shows.
Vamos iniciar a catalogação e começar a montar o site da banda em breve.
Assim que eu tiver um tempinho. (Casa de Ferreiro, espeto de pau).
A última foto que recebi foi uma enviada pelo Piuí. Tem mais coisas legais lá na parte de Portfolio Fotográfico dele que, diga-se de passagem, está muito bom. Gabs
4:01 PM
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Quarta-feira, Março 12, 2003
Havia um post aqui sobre um sorriso que era tão pessoal que não poderia ir ao ar.
Certas palavras ainda são melhores quando ditas apenas ao destinatário. Gabs
3:48 AM
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Segunda-feira, Março 10, 2003
Cada vez que olho para o espelho encontro um estranho na face refletida. A face que o espelho mostra já é praticamente irreconhecível, o reflexo reserva surpresas nas segundas e terceiras olhadas. O olhar está diferente. Os olhos mudaram ou apenas a maneira como olho para eles no reflexo?
Eu aparo a barba como quem limpa a casa para visita. Os pelos incomodam a pele, arranham, são estranhos no meu rosto, ocupando espaço e lembrando meu desleixo. As sobrancelhas que arqueam no processo, os cabelos que molho enquanto lavo o rosto. Quem é este no reflexo?
Minha cabeça é um Escher, meu coração tem portas falsas que levam a abismos e a lugar nenhum. Há as portas que levam a escadas que sobem e nestas eu penso em girar a maçaneta mas falta-me determinação. A água que escorre do rosto é doce e molha a roupa.
Há um ceticismo no olhar que não havia algum tempo atrás. Chega um momento em que se perde em algum ponto do caminho aquele olhar crédulo, infantil até. Destes olhares que acreditam em tardes de ócio prazeiroso. Infelizmente nem sempre há rastros para se seguir na volta. O estranho me encara como quem propõe um desafio, a solução de um enigma. Decifra-me.
Enxugo o rosto na toalha clara, apago a luz e volto o olhar na direção do estranho do espelho. Mas ele não está mais lá. Foi consumido totalmente pela escuridão ou incorporou-se a mim. Não sei. Gabs
1:58 PM
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Domingo, Março 09, 2003
Mais algumas fotos tiradas no Festival de Blues...
Sei que estou devendo escrever mais por aqui. Já já tiro o atraso... :)
Gabs
2:01 PM
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Sábado, Março 08, 2003
Mais fotos você encontra aqui. Gabs
5:43 PM
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Às vezes os sorrisos são mal-interpretados. Principalmente aqueles que de tão lindos emprestam a todo o rosto uma aura de tranqüilidade, paz, amenidade.
Há pessoas que sorriem com a boca, há as que sorriem com os olhos, há aquelas que sorriem com tudo, olhos, boca, alma.
Há sorrisos que conseguem nos fazer parar de pensar em blues, no carnaval, em qualquer coisa a não ser naquela tranqüilidade toda que o sorriso, o rosto, a alma evoca.
Impossível dissociar. Nem gostaria de. O sorriso órfão perderia o encanto.
Ela toda é encantadora.
Seria pretensão continuar sonhando com este sorriso, ou todo carnaval acaba hora ou outra? Gabs
5:01 PM
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Quarta-feira, Março 05, 2003
Sim, estou de volta a Fortaleza mas cansado demais para escrever muito por aqui agora.
O carnaval em Guaramiranga foi fantástico. Faltam palavras agora, mas sobram fotos para breve!
Aguardem até amanhã que eu os coloco a par.
Abração!
Gabs
9:24 PM
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