gabriel ramalho
designer, músico, 25 anos.

ouve blues, hard rock, jazz, instrumental, experimental, mpb, música regional.
curte cinema, fotografia, artes plásticas e design.

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Terça-feira, Novembro 25, 2003

Alice´s Blues, faixa do nosso CD a sair do forno estes dias, já está disponível na Internet.
Você pode seguir o link e baixar aqui e depois clicar no "comments" aí embaixo e deixar sua opinião.
Em breve, quando estiver tudo pronto, dou informações sobre como comprar, estas coisas...
Obrigado!

Gabs
7:57 AM

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Domingo, Novembro 09, 2003

Quatro vezes por semana, levava o jornal dobrado debaixo do braço, os velhos óculos no bolso da frente do paletó e descia do ônibus na última parada da praça. O cabelo branco assentado com brilhantina e alinhado com um velho pente fino de plástico cor-de-cobra que guardava há mais de 30 anos. Cheirava a colônia inglesa, de farmácia, como fazia sempre que se arrumava para este encontro. Acreditava que ela gostava deste cheiro nele e que era só sentir pra saber que estava chegando.

Enquanto atravessava a praça, pisando as pedrinhas portuguesas, era comum que algumas crianças largassem as brincadeiras e o seguissem, ora imitando o passo descompassado, ora rindo baixinho e fazendo zombarias. Os mais velhos, alguns antigos amigos, olhavam com um pouco de pena. Alguns davam esporros nas crianças. "Deixem o louco, deixem o louco!" As crianças voltavam às suas brincadeiras e olhavam de longe, escondidas.

Chegava ao centro da praça e tirava o óculos do bolso da frente. Com cuidado, abria as pernas da armação e, focando a vista, esboçava um sorriso ao ver a imagem da estátua cinza se tornando mais nítida aos seus olhos. Podia enxergar um sorriso na face de pedra também. "Sou eu, meu amor, te trouxe o jornal de hoje", dizia e sentava-se no banco em frente para ditar-lhe as notícias.

Alguns dias, levava-lhe rosas e eram estas, murchas, cujas pétalas secas agora o vento arrastava para seus pés. Noutros, como hoje, ia com o jornal ler-lhe as novidades. Ela não merecia a ignorância dos fatos por não poder se locomover dali. Ninguém merecia, pensava.

Tantas vezes ouvi esta história e, há tanto tempo, que nem sei ao certo que partes são reais, que partes imaginárias, que partes eu inventei. Talvez a própria lembrança de tais fatos me tenha sido inventada. Talvez nunca a tenha ouvido, de fato. A questão é que quaisquer as origens desta história, nenhuma me desestimula continuar este relato.

- Me conta mais.
- O que você quer saber, meu amor?

A estátua feminina, sobre o pedestal, tinha feições suaves, traços finos, olhos vítreos e lábios grossos. Imóveis.

- Quero saber sobre a cidade, sobre além dos limites desta praça.
- Não acontece nada lá fora que não aconteça aqui. Você mesmo me disse certa vez.

Olhava os olhos da estátua com interesse e doçura e ouvia-lhe a voz suave e calma. Os passantes olhavam de soslaio o velho que conversava sozinho.

- Você me parece cansado. Não gosto de te ver assim.
- Estou ficando velho. Não tenho mais a disposição de fazer este percurso a pé.
- Agradeço você ainda poder vir me ver. Estou meio esquecida e a solidão me angustia às vezes.
- Eu também a sinto. Não sabes os dias que passo quando não venho te visitar.
- Eu preciso muito de você.

E ele lia as notícias e as interpretava até que a noite chegasse e ele não pudesse mais ler o jornal.

Ia para casa, no ônibus, após se despedir tocando a mão da estátua cinzenta, já contando os dias para voltar a vê-la. Levaria flores da próxima vez, como já fazia sempre há vários anos. Pela janela, observava as lojas passando, o trânsito noturno e lembrava das palavras suaves de sua amada em sua cabeça, "Boa noite, meu amor. Já te espero desde então". Lembrou de quando ficara apaixonado no dia em que a viu sendo colocada naquele pedestal e enxergou por trás de seus olhos de pedra, uma vivacidade suave pronta para irromper daquele envólucro sólido. Nos dias seguintes, passara em frente a estátua até ter a coragem de abordá-la. Sempre foi receptiva. Ele lembrava e sorria.

Dois dias depois, voltava à praça com as flores, repetindo o percurso pelas pedrinhas portuguesas. Pôs o óculos e deitou as flores sobre os pés de pedra.

- São para ti.

Ela não respondeu desta vez. Ele repetiu a frase. O rosto da estátua imóvel, os olhos perdidos. Ficou conversando com ela, baixinho, até que as lágrimas começassem a cair de seu rosto. De alguma forma, ela não estava mais lá e suas frases voltavam sem respostas. Inconclusivas.

Neste dia não foi para casa. Ficou sentado no banco, lágrimas escorrendo pelas maçãs do rotsto, olhando a sua amada imóvel e muda. Nunca se sentira tão sozinho. Queria ouví-la perguntar-lhe por que chorava, mas desta vez era só sua voz e o silêncio. A noite ia já grande e as luzes da praça foram apagadas. No escuro, ele observava o contorno da estátua contra a lua e apertava com força o cartão de papel que trouxera para ler-lhe.

Aguçando a vista, enxergou em meio a escuridão, um vulto feminino que se aproximava. Vinha andando contra a luz e não deixava ver-lhe as feições. Por mais que quisesse, seu cansaço e a força das pernas não o deixava levantar-se do banco. Ela aproximou-se e tocou-lhe o ombro com uma mão fria, mas macia.

- Está pronto?
- Estou - disse e os olhos se enchiam de mais lágrimas.
- Vem comigo.

No dia seguinte, logo cedo os vendedores começaram a montar suas bancas na praça. Foi por volta das 6 da manhã que perceberam o velho ainda sentado no banco. A pele acinzentada, os olhos vítreos, duro como pedra. Tinha um sorriso nos lábios imóveis.

Gabs
4:48 PM

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