Sexta-feira, Janeiro 16, 2004
Prefácio de uma conversa imaginária
- A vida da gente não tem roteiro já pronto. A gente vai escrevendo aos pouquinhos, palavra por palavra, frase por frase, morrendo um pouquinho em cada parágrafo, renascendo um pouquinho a cada capítulo. Uma frase sublinhada é um conselho.
Ela ria para dentro, fechando a boca e tremendo o corpo, seu riso um pequeno terremoto. A agradava a idéia de morte e renascimento, quase fênix, purificação e renovação. Por fim, argumentou:
- Como escrevemos a vida então, já que ela não vem pronta? - tinha um certo receio em desrespeitar as forças do destino.
- Com computador que não é - ele disse e só ele riu do comentário - no computador, a gente volta e apaga. Na vida não há muito espaço para este tipo de correções. É mais fácil ser à caneta. Vai a mão livre desenhando as letras e quando se percebe as frases estão prontas, só seguindo a cabeça. A mão não volta senão pra rasurar ou riscar. Apagar nunca.
- À caneta se passa corretivo - deliciou-se com a frase. O ar era vitorioso.
- O corretivo não corrige, nem apaga. Só encobre. Por trás daquela mancha branca ainda existe o fato passado. Há ainda uma letra qualquer, uma palavra, um parágrafo até. Os fatos permanecem marcados no papel e aparecem contra a luz.
Ela deu um sorriso fechando um pouco os olhinhos. Eram duas chamas na semi-escuridão. Ele a envolveu perto de si e sentiu uma sensação de conforto. Aconchegada a ele, ela era como um pássaro que construía o ninho ao seu redor por segurança.
- Não te entendo direito. - ela disse, os olhinhos quase fechados à altura do peito dele.
- Lê meu índice. - ele brincou e uma vírgula instalou-se no ar.
- Meu índice não é ordenado. - para ela, mais que a analogia de um livro a ser escrito, a vida se assemelhava mais a um calhamaço de folhas soltas que iam se ordenando a esmo.
- Deixa eu ler teu glossário então - riram-se. Reticências. Às vezes o silêncio se instalava entre os dois e os dedos dele corriam pelos cabelos dela, desenhando novas palavras.
Não tinham lido ainda as páginas anteriores ao capítulo em questão. Parecia mais um conto, como se as histórias de ambos tivessem começado a partir daquele momento e não tivessem vivido paralelas por tanto tempo até cruzarem-se numa interrogação qualquer. Não sabiam que o desconhecimento da obra integral, mesmo sem desmerecer o tanto de livro lido, traria problemas de entendimento.
- Lê meu índice.
Ele olhava o livro que ela escrevia e, enquanto a caneta encarava folhas brancas no seu, o dela parecia ser escrito a lápis.
Imaginou-a como Penélope, de noite com uma borracha apagando os frágeis traços do grafite sobre o papel. Iam sumindo palavras e frases, letra por letra. O que se ia escrevendo durante um dia virava restos de borracha de um dia para o outro. Assustou-lhe a idéia de esquecimento e via os restinhos de borracha caindo pelas bordas, o marcador numa página não escrita.
- Às vezes se tem medo de passar do prefácio. E o que se perde só se sabe lendo. O índice apenas nomeia as interrupções. Gabs
5:15 PM
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Domingo, Janeiro 11, 2004
Ganhei de presente da pessoa que tem feito minhas horas bem mais divertidas. E que tem feito os minutos voarem e as horas diminuírem.
Comecei a ler o livro ontem e já estou adorando. Depois falo sobre por aqui.
Se pode ter um comentário direcionado: Obrigado, viu? Gabs
10:48 AM
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Quinta-feira, Janeiro 08, 2004
Selecionados de Guaramiranga
Fomos selecionados para o festival de Blues e Jazz 2004 em Guaramiranga. Pra quem é de fora, este é um dos maiores festivais do Brasil.
A Bitten Blues vai tocar no Domingo de carnaval, às 20h no Teatro Rachel de Queiroz.
Estamos preparando um super show pra ocasião.
Uma curiosidade: a Bitten Blues é a única banda de blues a tocar no Festival dois anos. Uma grande honra!
Obrigado a todos que torceram pela gente.
Gabs
11:14 AM
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Íamos assistir Invasões Bárbaras (eu ia reassistir). Chegamos atrasados e perdemos a primeira meia-hora de filme.
Na bilheteria, o impasse. O próximo filme, do qual não sabíamos nada, começava em dez minutos. Encontramos Carol e Germano na porta do cinema. "Este filme é maravilhoso".
Compramos o ingresso e entramos.
A troca não poderia ser melhor.
Callas, aos 53 anos, vive reclusa em Paris, afastada há anos dos palcos e numa depressão profunda. Passa os dias em casa, ouvindo suas velhas gravações, rememorando o ex-marido e não quer voltar aos palcos porque acredita que não tem mais a voz dos seus melhores tempos. Um velho amigo, produtor, tenta tirá-la desta situação propondo-lhe uma nova produção: interpretar "Carmem" em um filme, usando a voz de Callas já gravada há mais de 20 anos.
Um bom pretexto para se ver/ouvir boa música lírica, locações interessantes e bastidores de espetáculos. Recomendo.
CALLAS FOREVER
(Biografia - Inglaterra/Itália/Espanha/Romênia - 2001)
Direção: Franco Zeffirelli
Elenco: Fanny Ardant, Jeremy Irons, Joan Plowright, Jay Rodan, Gabriel Garko, Anna Lelio
Duração: 111 minutos
Gabs
9:02 AM
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Terça-feira, Janeiro 06, 2004
Crocodilo
Abriu a gaveta para caçar o grampeador e deu com a estranheza ali parada. Pequenininha de forma irregular e brilho metálico parecia encarar-lhe como que propondo um desafio de esfinge. Os segundos de hesitação e estupefação olhando a curiosa peça davam pistas de que ali, por falta de decifração, seria ele o devorado.
Continuava olhando a peça de metal: redonda num canto e, no outro, uma extensão como que um braço cheio de identações. Se tivesse outra igual e soubesse mexer com os metais, poderia juntá-las por brincadeira e fazer uma cabeça de crocodilo, pensou e desistiu logo depois porque havia pensado numa nova analogia, esta bem melhor. Parecia um pescoço comprido com uma cabeça redonda na ponta. O furo que havia no meio da tal cabeça parecia um olho que, curioso e paciente, esperava dele alguma decisão. Encarava-o profundamente, "Decifra-me". Atravessando a peça havia um anel de metal, uma espécie de elo que, por uma correntinha, se ligava a uma forma retangular com desenhos florais.
Já haviam se passado vários segundos desde que ele puxara a gaveta e dera com o objeto desconhecido ali dentro. Já havia esquecido até do grampeador. Agora olhava aquilo com incredulidade. Conhecia cada metro quadrado daquele apartamento e era acostumado a abrir a gaveta várias vezes por dia, mas nunca tinha se deparado com aquela chave ali. De uma coisa tinha certeza, não era sua. E de resto, das incertezas muitas, se perguntava como aquilo tinha ido parar ali, de onde viera, de quem era ou se sempre estivera ali e ele nunca tinha se dado conta. Respirou e o objeto já não parecia mais tão ameaçador. Agarrou-o.
Sentado no sofá, com a chave na mão, o primeiro passo foi tentar descobrir sua origem. Sabia que não era sua. Não havia perdido nenhuma chave recentemente tampouco uma chave desmembrada poderia se unir a um chaveiro por vontade própria - e aquele não era seu, outra certeza. Se possuísse um chaveiro retangular com desenhos de flores coloridas, certamente lembraria, refletia observando o objeto com olhar de cientista. Poderia ser do antigo dono do apartamento, deu-se conta subitamente desta provável obviedade. Havia se mudado faziam poucos meses e muitas de suas coisas ainda estavam dentro de caixas - sobretudo os vinis e as Vejas antigas. As outras, mais úteis, já encontravam-se espalhadas pelo quarto, banheiro, sala e cozinha. Lembrava-se de ter encontrado vazias as gavetas da sala quando mudou-se e, agora, aquela chave aparecia-lhe numa gaveta conhecida para desafiar-lhe a imaginação.
Puxou o molho de chaves do bolso e comparou com a nova descoberta. Nenhuma conferia. Tentou então experimentar todas as fechaduras e cadeados que pudesse encontrar pelo apartamento. A chave não entrou na porta do quarto, nem na do banheiro, muito menos nas três portas do guarda-roupa embutido. Lembrou-se de um baú velho abandonado pelo antigo inquilino na área de serviço e, mesmo que este se encontrasse aberto há tempos por um defeito na dobradiça, resolveu que tentaria girar a chave em sua fechadura. Não entrou. Perdeu o resto da tarde procurando em todos os cantos do apartamento por alguma fechadura que não tivesse se dado conta antes. Foi dormir impaciente já era noite alta.
Na manhã seguinte, acordou bem cedo com a chave ainda na mão. Estava decidido a desvendar o mistério e vestiu assim uma bermuda e camiseta branca e saiu pelas escadas do prédio como um explorador. Foi tentando a chave em todas as portas pelo caminho, aproveitando-se do horário quando seus vizinhos provavelmente ainda dormiam. Tentou nos registros de luz e caixas de cabos no corredor, a chave não entrava em nenhuma fechadura. No caminho até onde haviam as portinhas gradeadas onde, em cada uma, se guardavam os botijões de gás, foram centenas de tentativas infrutíferas. Já estava suado e ofegante enquanto ia de portãozinho em portãozinho tentando a chave sem sucesso. Voltou ao apartamento com uma expressão de derrota no rosto e, como todo bom explorador, resolveu traçar seu plano de ação para o dia seguinte. Não sem antes tirar todos os quadros da parede para verificar se atrás de algum se escondia alguma nova portinha.
Criou uma estranha obsessão em descobrir a porta a qual a chave pertencia. Já saía na rua sempre com a chave no bolso e ao chegar em algum local onde houvesse uma fechadura ou um cadeado, aproveitava qualquer descuido para tentar fazê-la girar. Alguns amigos se afastaram. Um assustou-se ao ir à cozinha buscar um copo de água para o visitante e encontrá-lo no quarto com o olhar confuso tentando abrir a gaveta de seu criado-mudo. Não conseguiu se explicar. Em poucos dias, a maioria dos amigos despareceu. Para ele, bastava-lhe a chave misteriosa. Pelos meses seguintes, tentava abrir tudo pela frente e quase foi preso tentando abrir uma caixa de correio. O policial o deixou ir, com pena.
Já haviam se passado três meses desde o dia em que abrira a gaveta atrás do grampeador. A barba já hirsuta denunciava que fazia tempo que descuidara de si. Foi neste dia, quase cem depois, que ele enfim reparou numa pequena inscrição abaixo do desenho floral no chaveiro. Procurou seus óculos com pressa como se o tal escrito fosse desparecer dali de um instante para outro. Com os óculos e aguçando a vista pôde ler, enfim. Era o nome de um hotel que havia numa cidade serrana a algumas horas de distância. Com a convicção de que, enfim tinha descoberto a solução do mistério que ocupara-lhe os últimos dias, foi buscar a chave do carro e saiu sem trancar a porta.
Chegou receoso e pediu um quarto. Teve que pagar adiantado pois não trazia malas, não reclamou. Não desgrudava a chave do bolso e, na sua obsessão, nunca perguntaria ao atendente do hotel se ele conhecia a tal peça. Temia que ela lhe fosse tirada sem que desvendasse o mistério. Foi com frustração que recebeu o chaveiro do seu novo quarto e percebeu que não era igual ao da chave que trouxera. Imaginou que talvez a chave coubesse em algum outro canto senão a porta de algum quarto.
Esperou a noite cair e saiu pelos corredores do pequeno hotel tentando fazer sua chave girar em alguma fechadura. Foi para os fundos sem que o vissem e tentou em portas destinadas a funcionários, compartimentos de gás, caixas de cabos, o escambau. Já estava amanhecendo quando ele, já cansado, resolveu voltar ao quarto pelos fundos.
Deitou-se na cama pesadamente e, ao sentar-se depois para tirar seus sapatos, reparou que na parte de baixo da cama havia uma gaveta com fechadura. Pensou que teria que ir depois em cada quarto tentar abrir cada gaveta e se abateu com a quantidade de esforço por fazer. Teria que pagar uma nova diária e, ademais, eram uns trinta quartos no hotel. Por fim, pensou que talvez não fosse demais tentar abrir esta última gaveta do seu próprio quarto antes de dormir. Já estava ali mesmo.
Colocou a chave na entrada e esta deslizou com extrema facilidade. Emocionado, girou a chave em sentido horário e ela correspondeu ao movimento. Parou quando ouviu o clique. Depois de meses, atingira sua Meca. Com cuidado e o coração aos pulos, puxou a gaveta vagarosamente e teve um sobressalto ao olhar para dentro. Ao lado de uma pirâmide decorativa de plástico e um pedaço de cano de forma circular - nunca entendera as coisas que se acham em gavetas de hotéis - estava lá outra peça desafiante. De forma irregular, com um extremo arredondado e outro extremo alongado com identações, era a outra chave presa a um chaveiro floral. Pegou as duas, deixou-as sobre a cama e, com um olhar confuso, lembrou-se da idéia do crocodilo. Mas não dava, as duas formas eram bem diferentes. Tanto das chaves em relação ao crocodilo como a de ambas entre si.
Gabs
9:25 PM
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