gabriel ramalho
designer, músico, 25 anos.

ouve blues, hard rock, jazz, instrumental, experimental, mpb, música regional.
curte cinema, fotografia, artes plásticas e design.

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Terça-feira, Maio 30, 2006

das loiras
Tomei Itaipava e Original. Da primeira, meu paladar sentia falta e minha memória gustativa foi sorridentemente fiel.
Ontem descobri que a Stella Artois chegou em Fortaleza. Long Neck a dois reais por uma cerveja destas chega a ser ofensivo de tão barato.
Se as duas outras que citei acima chegarem por aqui, vão diminuir consideravelmente os motivos que me fariam um dia ir embora. E falo sério!

*
Quem diria...
Nunca pensei em dizer isso, mas vale a leitura da coluna do André Petry na - ora vejam só! - Veja. No Observatório da Imprensa tem.
Interessante ver que o resto da linha editorial não aparenta coadunar com o articulista. Na seção de frases, críticas à fala de Lembo sobre a culpa da elite na violência devido ao abismo social que existe e ao ódio que aumenta sempre que um pobre vê uma Suzanne Von Richtoffen indo cumprir pena em casa ou vê a madame segurar a bolsa com força ou apertar o passo quando ele, mesmo que honesto, chega perto.

A seção de cartas continua a mais divertida. É bacana ver gente posando de inteligente ou opiniosa, simplesmente repetindo as teses da revista com outras palavras.
Sem contar os que elogiam o trabalho do panfleto.

Ok, eu tinha prometido não falar de política... mas falar da Veja ainda pode?

Gabs
12:00 PM

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Quarta-feira, Maio 24, 2006

porque não quero mais falar de política
Ok, cansei a mão.

* * *

Depois falo com mais calma da minha viagem a SP neste final-de-semana. O tempo urge aqui.
Por enquanto, só uma constatação antiga: as coincidências me perseguem!

Gabs
8:23 AM

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Sexta-feira, Maio 19, 2006

O alienista
Surpreendi-me ontem com a entrevista de Lembo à Folha de São Paulo. Não é todo dia que se vê um político pefelista tocando na ferida causada pelo neo-liberalismo quando executado sem investimentos sociais e sobre a elite que não quer enxergar sua parcela de culpa no imenso abismo da desigualdade social.
Hoje, mais uma vez, o governador de SP me surpreendeu em entrevista ao Terra, comentando inclusive as críticas que recebeu dos colegas de partido por ter aberto a caixa de Pandora.
Em um dos momentos que comenta sobre a impunidade dos crimes dos mais ricos, lembrei-me do caso da Daslu. A dona foi presa pela Polícia Federal por sonegação e teve sua defesa efetuada pela advogada filha de Serra. Ao mesmo tempo, empresários e o próprio Alckmin, amigo pessoal da moça, reclamavam do absurdo em entrevistas de televisão.

Lembo: Eu vejo pessoas ostentando suas casas luxuosas apesar de terem feito grandes falcatruas e outros estão presos, né?

Terra: E a população (mais pobre)...
Lembo: Percebe e vê isso.

Gabs
11:54 AM

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Gabs
7:43 AM

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Quinta-feira, Maio 18, 2006


Amizade em vermelho e uma barba por fazer.
Minha irmã-por-escolha, Carolzinha.
O anjo.

Gabs
9:41 PM

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elite branca
Tenho que dar o braço a torcer. Excepcional entrevista com o governador Cláudio Lembo na Folha de São Paulo.

Um pedacinho:

Folha - O que o senhor pode dizer para um jovem de 15 a 24 anos, que vive em ambientes violentos da periferia? Que ele vai ter escola? Saúde? Perspectivas de emprego? Como afastá-lo de organizações criminosas como o PCC?

Lembo - Acho que você tem duas situações muito graves: a desintegração familiar que existe no Brasil, e a perda... Eu sou laico, é bom que fique claro para não dizerem que sou da Opus Dei. Mas falta qualquer regramento religioso. O Brasil está desintegrado e perdeu seus valores cívicos. É ridículo falar isso mas o Brasil só acredita na camisa da seleção, que é símbolo de vitória. É um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais...Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa.

Folha - Que ficou assustada nos últimos dias.

Lembo - E que deu entrevistas geniais para o seu jornal. Não há nada mais dramático do que as entrevistas da Folha [com socialites, artistas, empresários e celebridades] desta quarta-feira. Na sua linda casa, dizem que vão sair às ruas fazendo protesto. Vai fazer protesto nada! Vai é para o melhor restaurante cinco estrelas junto com outras figuras da política brasileira fazer o bom jantar.

Folha - Tomar conhaque de R$ 900 [preço de uma única dose do conhaque Henessy no restaurante Fasano].

Lembo - Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país.

Gabs
2:40 PM

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Quarta-feira, Maio 17, 2006

das denúncias

Em matéria desta semana (para assinantes), Veja divulga bombástica lista apresentada pelo banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, com autoridades brasileiras que teriam contas secretas no exterior. Quem lê o periódico e conseguir ler até o final da matéria, verá no final uma surpreendente tirada de corpo, quando a publicação que acabou de divulgar notícia a título de informação bombástica ou furo jornalístico, tem a desfaçatez de assumir que não conseguiu averiguar se as informações que acaba de divulgar são reais ou não.

Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, escreveu um excelente artigo a respeito.

* * *

rememória

Veja e a imprensa em geral colocam o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) como um legítimo representante de honestidade, ética e todos os bom-mocismos associados a sua cândida postura de defensor de nossos direitos e combatente da "organização criminosa" que se instalou no Governo Federal.

Sei que meus cinco leitores têm boa memória, mas vale relembrar as férias frustradas do Deputado Arthur Bisneto, filho de Arthur Virgílio, no Ceará e a constrangedora retirada do nome de Omar Aziz da relação dos indiciados na CPI da Prostituição Infantil no Amazonas pelo voto de Arthur Virgílio. Na época, a mãe de uma das vítimas afirmou que o senador gostava de dar presentes à sua filha de 16 anos, o que explicaria o corporativismo na absolvição do colega.

Gabs
2:20 PM

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Segunda-feira, Maio 15, 2006

Transferência de culpa

Não tenho dúvidas de que se o que está acontecendo em São Paulo ocorresse em qualquer governo estadual do PT, a mídia já estaria em cima jogando a culpa na ineficiência da Segurança Pública, PFL estaria lançando campanhas anônimas (como as de ataques ao Presidente e que o TSE os obrigou a assinar e, quando o fizeram, assinaram com a logo do partido transparente) sobre o caos e o presidenciável da oposição apareceria em destaque nos noticiários dando sua opinião sobre o descaso que permitiu que tal crise acontecesse.

Lula recomendou que o caso fosse tratado sem politização, que uma potencial ajuda do Governo Federal fosse oferecida para contornar a crise e que seu ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, entrasse em contato com o Governo de SP e fizesse a proposta da ajuda, através do envio de 3.000 soldados da Força Pública do Exército e 4.000 mil homens da Força Nacional de Segurança. A proposta foi feita por telefone a Cláudio Lembo, atual governador, já que o governo não pode intervir sem que haja o pedido formal do governador. Este disse que a situação estava "sob controle". Estamos vendo.

A situação parece ser muito séria. Hoje já ouvi que incendiaram ônibus, fecharam metrôs e que até Congonhas foi evacuado. Para mim, que estou de viagem marcada para lá na sexta, o medo é claro que aparece. Arrisco a vida tentando andar pela cidade ou me arrisco a ficar perdido sem acesso algum a transporte público em uma cidade amedontrada.

Não sei se peço adiamento, mudo o trecho ou que tais. Não sei o que ainda pode acontecer até sexta-feira. Até lá, torçamos.

Gabs
8:11 PM

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mais presídios e menos escolas?

Sobre minha queixa de que o neo-liberalismo exarceba a necessidade de conquistas de mercado e negligencia o atendimento às necessidades sociais: Se um estado se preocupa mais em construir presídios que em investir em construção de escolas e nivelamento de professores, há alguma coisa errada. Tenta-se remediar um mal sem combater as causas. A coerção sobre a prevenção.

Elucidativa é a entrevista de Loïc Wacquant à Folha de São Paulo. Sociólogo respeitado e profundo estudioso das desigualdades sociais e dos sistemas carcerários e judiciais, professor da Universidade de Berkeley e ganhador do prêmio da Fundação MacArthur, além de ser pesquisador do Centro de Sociologia Européia em Paris, o francês apresenta em poucas frases muitas das causas da crise atual. Um estado que só foque em Mercado externo e não promova o investimento ou a distribuição desta renda em ações sociais está fadado a enfrentar a horda dos bárbaros uma hora ou outra.

Um aperitivo:

Folha - Por que a situação em São Paulo chegou a esse ponto?

Loïc Wacquant - Porque nas últimas décadas as elites políticas brasileiras têm usado o estado penal --polícia, tribunais e sistema judiciário-- como o único instrumento não só de controle da criminalidade como de distribuição de renda e fim da pobreza urbana.

Expandir esse estado não fará nada para acabar com as causas do crime, especialmente quando o próprio governo não respeita as leis pelas quais deve zelar: a polícia de São Paulo mata mais que as polícias de todos os países da Europa juntos, e com uma quase impunidade. Os tribunais agem sabidamente com preconceito de classe e raça. E o sistema prisional é um "campo de concentração" dos muito pobres. Como você pode esperar que esse trio calamitoso ajude a estabelecer a "justiça"?

A manutenção do que chamo de estado penal só faz com que a violência institucionalizada alimente a violência criminosa e faça com que as pessoas tenham medo da polícia. Cria um vácuo que o crime organizado sabe muito bem preencher. Isso permite a eles que cresçam e sejam tão poderosos e ousados a ponto de desafiar abertamente o Estado e seu monopólio do uso da violência.

Folha - O sr. acha que os ataques acontecerão de novo?
Wacquant - Sim, pode-se prever que acontecerão de novo e de novo, pelo menos enquanto as elites políticas se recusarem a encarar de frente as desigualdades vertiginosas. Nenhuma sociedade democrática na face da Terra pode combater o crime apenas com seu aparato policial-judiciário.

Quais os remédios? Os de sempre: educação, emprego, seguro para os desempregados e uma rede social para os mais pobres. O Brasil paga com violência criminal sua recusa injustificável de encarar sua desigualdade social.


Vale a pena a lida na entrevista completa.

Gabs
8:09 PM

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do debate

Em 15 de fevereiro, em sessão extraordinária na Assembléia Legislativa de São Paulo, o deputado Pedro Tobias batia boca com o deputado Hamilton Pereira em debate que colocava em oposição as realizações do Governo Federal e do Estadual de SP; dando lindas mostras do pensamento neo-liberal:

Pedro Tobias - PSDB: Deputado Hamilton Pereira, V. Exa. pode pegar qualquer área para discutirmos. Vamos pegar a área da saúde. Quantos governos federais construíram escolas no Brasil todo? E quantas escolas o Governo Geraldo Alckmin construiu aqui? Quantos presídios construímos e quantos o Governo Lula construiu?

Vamos nessa comparação. São Paulo com Brasil. No orçamento que se está votando estão sobrando mais de 9 bilhões. No orçamento federal chega pouca coisa perto. Isso é bonito de comparar. Vamos comparar São Paulo com 80 bilhões. Lá a arrecadação chega a trilhão; Não é bilhão.

Mas um debate é saudável. Sou contra esse colégio de líderes que discute a portas fechadas. Aqui o debate é televisionado, a sua cidade está assistindo e o eleitor a sua cidade que decide, é o usuário.


Hamilton Pereira - PT: Agradeço mais uma vez, nobre Deputado Pedro Tobias. Vossa Excelência se refere aos investimentos na construção de escolas, na construção de presídios.

Infelizmente, nosso Governo vem transferindo bastante recurso para o Estado de São Paulo para a construção de presídios, um Estado onde obviamente pouco se investe em educação, pouco se investe no ensino superior, pouco se investe inclusive na Febem - cuja sigla significa Fundação para o Bem-Estar do Menor - e que pouco cuida do bem-estar dos menores, das nossas crianças e adolescentes.

Porque foram tratadas sempre com a política da repressão, com a política do castigo, com a política do massacre. Na realidade, as Febem foram transformadas pelo Governo do Estado de São Paulo em uma verdadeira universidade do crime. É uma pena, porque a Febem foi concebida como um projeto bom, um projeto efetivamente para ressocializar nossos jovens, os nossos adolescentes que enveredaram por um caminho tortuoso na vida, e que poderiam ser recuperados. Mas é claro que com repressão, com massacre não se recuperam crianças, adolescentes e jovens.

Portanto, o Governo Federal tem ajudado o Estado de São Paulo a construir presídios. Se o Estado de São Paulo contribui enormemente com a falta de investimentos nas áreas sociais para gerar aqui criminalidade, é claro que os presídios são um mal necessário. O Governo Federal tem que ajudar o Estado de São Paulo, e o vem fazendo para que o Estado possa ter um número suficiente de presídios para abrigar a criminalidade crescente, por conta da falta de investimentos na área social, por parte do Governo do Estado, haja vista o crescimento de seqüestros-relâmpago, dos seqüestros propriamente ditos, e os crimes - roubo, furto e até latrocínio.

(...)

Portanto, infelizmente, o seu partido vem perdendo terreno, porque governa mal, do jeito que governa. Tem recursos, mas não sabe fazer investimentos, não sabe onde aplicá-los. É claro que vem desmerecendo cada vez mais o voto que obteve do povo paulista e, portanto, vem perdendo terreno no campo das comparações e no campo das pesquisas, que fazem essas comparações consultando, como foi o caso da Sensus/CNT, mais de duas mil pessoas em todo o território brasileiro, onde o Presidente Lula já leva uma vantagem em todas as situações simuladas de 10 pontos percentuais, quer seja no primeiro turno, quer seja no segundo turno, quer seja sobre o pré-candidato Geraldo Alckmin, quer seja sobre o pré-candidato José Serra.

Qualquer comparação que V.Exa. quiser fazer, nós o faremos com tranqüilidade, nobre Deputado Pedro Tobias.


(Para ler na íntegra.)

Gabs
6:21 PM

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Domingo, Maio 14, 2006

copo vermelho



Fui convidado para uma festa bacana. Coincidentemente no mesmo fds que estarei em SP. Já confirmei minha presença.
Além de quê a lista de convidados parece bem interessante, juntando blogueiros de várias correntes.
Vejamos, então.

Enquanto isso, o que tem no copo vermelho?

Gabs
11:01 AM

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Vote Corrêa 26



Em ano de eleição, um bônus: um dos melhores momentos da campanha presidencial de 89.
"Você sabe o que é justiça social"?

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frase da semana

"armada até os dentes em Epitaciolândia"

Gabs
10:38 AM

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Terça-feira, Maio 09, 2006

literatura

Eu escrevo para os que não podem me ler. Os de baixo, os que esperam há séculos na fila da história, não sabem ler ou não tem com o quê.
Quando chega o desânimo, me faz bem recordar uma lição de dignidade da arte que recebi há anos, num teatro de Assis, na Itália. Helena e eu tínhamos ido ver um espetáculo de pantomima, e não havia ninguém. Ela e eu éramos os únicos espectadores. Quando a luz se apagou, juntaram-se a nós o lanterninha e a mulher da bilheteria. E, no entanto, os atores, mais numerosos que o público, trabalharam naquela noite como se estivessem vivendo a glória de uma estréia com lotação esgotada. Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.
Nossos aplausos ressoaram na solidão da sala. Nós aplaudimos até esfolar as mãos.

Eduardo Galeano in O livro dos abraços


* * *

Lúcio, o dono da biblioteca da árida cidade de Icamole, em O Último Leitor, amarga seus dias sem comida e sem água lendo os livros numa cidade onde ninguém lê e decidindo quais devem permanecer nas estantes e quais devem ser jogados às traças e baratas do seu porão, chamado de Inferno dos Maus Livros. Em paralelo à investigação pelas autoridades do desaparecimento de uma criança da cidade vizinha, cujo cadáver foi descoberto por Remigio, filho de Lúcio, no fundo de seu poço, o único com água em toda a cidade, David Toscana, o autor deste que já é considerado um dos mais inovadores romances latino-americanos recentes,explora a necessidade da literatura como parte da vida e não como mera simulação do real. As investigações e fatos reais confundem-se com as memórias literárias de Lúcio, nos fazendo em vários momentos ficar sem saber se estamos lendo trechos de suas leituras ou a realidade dos fatos de Icamole, tornando mais tênue a linha entre o fantástico dos livros e o da vida real. Na verdade, o grande feito do autor é nos presentear com vários livros dentro de um só, explorando a diversidade de formas de narrativas e dando uma verdadeira aula de literatura e/ou crítica literária.

[Um dos trechos, onde Toscana descreve como Lúcio condena sumariamente um livro por este citar a marca do terno preto vestido pelo protagonista me fez lembrar o porquê de eu não conseguir gostar de Dan Brown. A cena do Peugeot (ou Renault?) deslizando pelas curvas da estrada no segundo capítulo de "O Código Da Vinci" foi o bastante pra eu atirar o livro longe e esquecer para sempre.]

Um trecho do livro, tirado do site da Editora Casa da Palavra:

Tempos atrás Lucio fez uma experiência: enquanto lia Olhos insones, usou um pincel para passar mel sobre os parênteses e travessões que tanto usam certos autores com o propósito de subordinar ou intrincar as frases. Para Lucio, esses símbolos são concessões que a gramática faz aos escritores canhestros, aqueles que não atinam com o modo de encadear as frases de maneira natural, lisa. Amarrou uma corda à lombada do livro e o fez descer ao inferno. Um mês depois o tirou. Ficou decepcionado porque as baratas não demonstraram ter preferência pelo mel, pois tinham consumido por igual travessões, parênteses, prosa ruim e frases bem formuladas; depois aceitou isso como uma coisa natural, já que as baratas não tinham por que diferenciar aquilo que a massa de leitores não distingue.

Lucio tem hoje outro livro para o inferno, outra mostra de formidável glosa espanhola, A verdade sobre os amantes, de Ricardo Andrade Berenguer, literato, crítico, jornalista, musicólogo e cineasta que considera mais importante o modo como o seu protagonista aproxima o cigarro do cinzeiro, as espirais de fumaça e o jazz ao fundo, que revelar de fato alguma verdade sobre os amantes. Aproxima-se da porta e abre a cortininha. Ouve as bocas dos insetos mordendo o papel.


* * *

A Editora Casa da Palavra é a mesma que publicou O Senhor Brecht, que tem uma resenha minha no Submarino. Fascinante é o capricho que eles têm com os livros, da escolha do papel à diagramação da capa, passando pela tipografia e, lógico, pela escolha de bons textos ou temas. Um passeio pelo catálogo é de encher os olhos.

Gabs
10:58 AM

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Segunda-feira, Maio 08, 2006

Passaredo

O céu estiou sem abrir as nuvens e a manhã ganhou uma atmosfera distinta, contrastando as cores vivas do que está sobre o chão com as cores cinzentas do que nos cobria as cabeças. A parca luz que varava as nuvens não era suficiente pra se ver refletida nas superfícies, mas bastava para banhar a todos, ainda não-secos da chuva e deixar-nos todos imersos numa atmosfera diáfana e argêntea.

Do outro lado da rua, o motoqueiro parado acena ao mecânico e este desvia os olhos do motor de meu carro para retribuir a graça e, quase como que pedindo desculpas, volta-se para mim, explicando "É louco este". Miro o olhar na atmosfera cinzenta e vejo o rapaz ainda acenando aos outros, ao homem da mercearia, à mulher que está à janela, à moça que varre a calçada, às senhoras da pequena vila de casas que cortava o quarteirão desembocando perpendicularmente na oficina mecânica. Agora com platéia, aperta a buzina e um som como um trinado metálico preenche o ambiente. Um pássaro qualquer responde ao longe, na vila, e ele arqueia os sobrolhos, abrindo os olhos e alargando o sorriso. Mais um aperto na buzina e outra resposta se soma ao canto do primeiro pássaro. O sorriso se desfaz e ele coloca o capacete com uma postura que lembra a de um cavaleiro medieval que se prepara para um embate mortal. A mão na buzina e a motocicleta lentamente virando em direção à entrada da vila.

Havia um silêncio respeitoso nos cenhos dos que responderam aos acenos e agora observavam o motociclista como quem prepara-se para assistir a um espetáculo. A moto inicia a emissão do trinado metálico e, em segundos, gorjeios, palrices, pios, chalreios, agloteios e outros cantos de resposta inundam todo aquele ar, quase numa sinfonia, numa organização inteligente de sons onde o condutor da moto era maestro. A luz passava rala pelas nuvens e os trinados ainda se ouviam ao longe, encerrando os últimos acordes do coral de pássaros e, enquanto os meus olhos inundavam de perplexidade infantil, todos os outros voltavam aos seus afazeres. Aquilo já era cotidiano. "É louco, né?" me trouxe à realidade o mecânico e eu nunca me senti tão infeliz por ser normal.

* * *

o rio

No meio do vôo, as nuvens se estendiam até o horizonte. Não se via céu e o avião parecia estar entre dois enormes blocos brancos, como um largo túnel que permitisse ver os dois lados, mas nada acima ou abaixo. A massa branca parecia sólida e se podia imaginar garotos correndo ali em cima, empinando pipas ou jogando bola. Era como um enorme platô, que se alargava até o horizonte e, quando ali chegava, abria pequenos espaços que, à distância, eram embaçados mas, quando vistos de mais perto, percebia-se serem enormes janelas irregulares, mostrando o céu e as outras nuvens mais abaixo.

Numa outra olhada, havia um vão nas nuvens acima e, na nuvem inferior, um buraco de desenho assimétrico rasgava o platô como um rio, revelando outras nuvens brancas abaixo que pareciam o reflexo do céu acima. E se podia imaginar gente se banhando ali, no vão.

* * *

Às vezes parece que Deus andou assistindo muito Fellini.

Gabs
6:05 PM

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Quinta-feira, Maio 04, 2006

da forma

Está rolando em Londres uma exposição sobre a Estética do Modernismo. Modernism: Design a New Word 1914-1939 é o nome e vai de 6 de abril a 23 de julho.
O website é muito bacana e lá, além de poder fazer um tour virtual, você também pode criar seu próprio poster modernista.

Gabs
10:10 AM

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